Palco Giratório 2025

011 Ao completar vinte anos, o Palco Gi- ratório Sesc/RS consolida-se como uma das mais importantes iniciativas de circulação e difusão das artes cênicas no estado. Ao longo de duas décadas, espetáculos atravessaram geografias, alcançaram cidades fora do eixo da ca- pital, formaram plateias e promoveram encontros entre artistas e comunidades. Mas um festival não se mede apenas pelo número de apresentações ou pela extensão geográfica que percorre. Mede- -se, sobretudo, pelas escolhas que faz. E toda escolha é, inevitavelmente, um po- sicionamento. Amarcamais evidente do Palco Giratório sempre foi a descentra- lização. Em um estado historicamente concentrado na capital, circular espetá- culos por diferentes regiões é intervir di- retamente na lógica de acesso à cultura. No entanto, circular não é apenas deslo- car obras no espaço. É construir campo. Ao longo dos anos, o festival ajudou a consolidar trajetórias, ampliar a visibi- lidade de grupos e artistas e desenhar, edição após edição, um retrato possível da cena contemporânea. Cada progra- mação não apenas apresentou espetá- culos: produziu referências, estabeleceu parâmetros, sugeriu caminhos. Quando uma obra circula por dezenas de cida- des, ela não está apenas sendo vista. Ela passa a integrar o repertório de um ter- ritório. A memória institucional tende a or- ganizar uma narrativa de continuidade e sucesso — legítima, necessária, come- morativa. Contudo, a memória crítica tensiona essa linearidade, reconhecen- do contradições, lacunas e transforma- ções. Ao revisitar o percurso do Palco Giratório, percebe-se que ele acompa- rece visibilidade ampliada. É decidir que narrativas, estéticas e modos de criação irão compor, ainda que provisoriamente, a imagem de um determinado momento das artes cênicas. A experiência como curador local da 18ª edição do Palco Giratório tornou essa percepção ainda mais concreta. Estar nesse lugar é lidar com uma série de camadas simultâneas: escutar o tempo presente, reconhecer transformações no campo artístico, considerar a diversi- dade de linguagens e, ao mesmo tempo, responder a limites institucionais, orça- mentários e logísticos. Mas, acima de tudo, é assumir uma responsabilidade: que imagem das artes cênicas estamos ajudando a projetar? A curadoria se constrói nesse espaço de tensão entre pluralidade e coerência. Não se trata de representar tudo — tare- fa impossível —, mas de construir uma narrativa possível. E toda narrativa im- plica, necessariamente, exclusões. Reco- nhecer isso não enfraquece o processo. Ao contrário, o torna mais consciente. Mas circular não é apenas deslocar cor- pos e cenários. É deslocar imaginários. Em alguns momentos, o festival ante- cipou movimentos; em outros, dialogou com eles a partir de um tempo próprio, atravessado por suas condições insti- tucionais. Essa relação com o tempo é, talvez, uma das características mais in- teressantes de um projeto de longa du- ração: ele não apenas reflete o presente, mas negocia com ele. Outro aspecto fundamental do Palco Giratório é sua dimensão formativa. Ao incorporar oficinas, debates e encontros, o festival expandiu sua atuação para além da exi- bição, contribuindo para a formação de público e para o fortalecimento de práticas locais. Em muitas ci- nhou mudanças importantes nas artes cênicas brasileiras: o fortalecimento do teatro de grupo, a emergência de narra- tivas identitárias, a ampliação do circo e da dança contemporânea, o crescimento de pesquisas híbridas. Mas também é legítimo perguntar: em quemedida o festival conseguiu acompa- nhar — ou antecipar — debates urgentes como as políticas de representatividade racial, de gênero e de territorialidade? A pergunta não é acusatória. É histórica. Lembro da primeira vez que assisti a um espetáculo dentro da programação do Palco Giratório, “O Realejo” do Grupo Bagaceira de Teatro do Ceará, quando morava emMontenegro. A sensação era dupla: encantamento e consciência. En- cantamento diante da potência da cena; consciência de que aquele encontro não era fortuito, mas resultado de uma polí- tica cultural estruturada. Havia ali um gesto deliberado de fazer chegar, de criar acesso, de produzir experiência. Como tempo, acompanhando diferen- tes edições, tornou-se evidente que essa circulação não era neutra. Havia um de- senho. Uma lógica. Uma curadoria. E é nesse ponto que o festival revela uma de suas dimensões mais complexas: a curadoria como gesto político. Escolher espetáculos não é apenas identificar qualidade artística. É definir o que me- Mas circular não é apenas deslocar obras no espaço. Circular é produzir sentidos.

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