Palco Giratório 2025

042 táculo ou acontecimento instaura uma realidade que é própria. Um último aspecto que gostaria de mencionar em torno das obras do Fes- tival é em relação às escrituras, as pa- lavras ou textos performativos. O século XX marca o fim das meta- narrativas como o único modo totali- zante de leitura no mundo. Assim, a cena contemporânea amplia o concei- to de dramaturgia, tanto do ponto de vista do modo de escrita como de sua materialidade em cena. Novos modos de autoralidade e caminhos polifôni- cos e intertextuais são utilizados. Há uma mudança no estilo das escri- turas, ou, de acordo com Sarrazac: ‘um transmodo, vamos do épico ao dramá- tico, saltamos do dramático para o épi- co [...] Deste modo, a forma dramática clássica torna-se inerte, esclerosada.’ Novas formas de escrita incentivam o desenvolvimento de diversos proces- sos de criação dramatúrgica: criações coletivas, dramaturgia em processo, colagem de documentos e biografias, autoficção, entre outros. O texto teatral vem nesse movimen- to de instalar a palavra e seus modos de enunciação, configurando o que Ri- chard Schechner chama de texto per- formativo [performance-text], ou seja, uma escritura na qual a palavra atrita com a ação, como nos espetáculos do Magiluth (PE). Devido a isso, e à sua na- tureza aberta e performativa, a palavra atinge sua ampla dimensão na compo- sição da cena, abrindo-se para um jogo de significados. Essa perspectiva difere da maneira mais clara da tradição do “dramaturgo de gabinete” ou mesmo da ideia de “teatro de estante”. Os textos articulam modos de es- critura sem permanecer na estrutura dramática clássica; ao contrário, eles sugerem maneiras de construção e ar- ticulação da palavra em outras dimen- sões do discurso, ora fragmentada, ora uma escrita de suspiros ou unidade. O personagem, quando presente, es- tabelece um diálogo direto com o es- pectador, evocando memórias e ações presentes por meio de fragmentos nar- rativos ou de palavras isoladas, como possibilidade de expansão e expressão das artes do corpo na sua relação com as urgências do mundo. As dramaturgias [em campo expan- dido] que pude apreciar pelos espetá- culos do Festival estão em diálogo com as questões mencionadas acima, seja por produzir no corpo a própria escri- ta, no caso dos espetáculos de dança e circo, promovendo outras grafias cêni- cas, seja pelo modo de operar com as palavras e instaurar novas narrativas, como na Biblioteca de Dança (BA). Por fim, cabe ainda mencionar a força da dramaturgia como instau- ração de uma identidade social, um ‘lugar de fala e corpo’ no mundo que estabelece com os espectadores uma relação de outridade para aqueles que não possuem um vínculo direto com o que se afirma ou uma vibração por simpatia para aqueles que estabele- cem uma conexão direta com o dis- curso. Ambas as relações recolocam a dimensão política do encontro entre artistas e espectadores. O mesmo po- demos também afirmar com relação aos debates do Seminário. Assim sen- do, creio que isto é fundamental para que a cena e o pensamento se mante- nham vivos e dinâmicos, nos quais os limites entre a vida e a arte, o público e o artista, desafiam nossas percepções e estimulam nossa reflexão. Referências ARTAUD, Antonin. O Teatro e seu duplo. São Paulo: Mar- tins Fontes, 2006. BOGART, Anne. Seis coisas que sei sobre o treinamento de atores. Urdimento, vol.1, no.12, Florianópolis, Mar. 2009. Disponível em http://www.ceart.udesc.br/ppgt/urdimen- to/2009/urdimento_12.pdf CARVALHO, Dirce Helena. Corporeidades e sonoridades em processos de criação: texto performático. In: Narciso Telles;Mara Leal. (Orgs.). Escena Expandida. Los Angeles: Karpa, 2018, v. 01, p. 00-00. E-book. Disponível em: https:// www.calstatela.edu/al/karpa/corporeidades-e-sonorida- des-dirce-carvalho KARTUN, Mauricio. El teatro teatra. In: Jorge Dubatti. El teatro teatra. Nuevas orientaciones em teatrologia.1ed. Bahía Blanca: EdiUNS, 2009. LARROSA, Jorge. “Notas sobre experiência e o saber de experiência”. In: Revista Brasileira de Educação. n. 19. São Paulo, p. 20 – 28, jan/fev/mar/abr, 2002. LEAL, Mara; TELLES, Narciso. La memoria y lo real en la escena contemporánea. In: Ileana Diéguez. (Org.). Carto- grafías Críticas II. Los Angeles: Karpa, 2018, v. 02, p. 00- 00. E-book. Disponível em: http://www.calstatela.edu/al/ karpa/cartograf%C3%ADas-cr%C3%ADticas-volumen-ii MATURANA, H.; VARELA, F. De máquinas e seres vivos: Autopoiese - A organização do vivo. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1997. SARRAZAC, J-P. Léxico do drama moderno contemporâ- neo. São Paulo: Cosac Naif, 2012. Soma-se a isso, a dimensão da palavra como ancestralidade, na qual a força está muitas vezes nas sonoridades presentes na cena do que na produção de sentido da fábula. O 19º Festival Palco Giratório e o 6º Seminário, em 2025, consolidam- -se como um evento e um espaço de reflexão articulados e fundamentais para a valorização das artes cênicas no Brasil. O Festival não apenas pro- porcionou momentos de imersão na cena brasileira contemporânea, com espetáculos de norte a sul do país, mas também reafirmou a importância das artes cênicas como um dispositivo de pensamento-prática das questões que habitam o mundo contemporâneo e, ao mesmo tempo, umcatalisador de expe- riências significativas e umcampo fér- til para a construção de novos saberes e subjetividades. Evoé!!

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