Palco Giratório 2025
065 os paradigmas pelos quais compreen- demos o teatro e, por extensão, o próprio mundo. Central para essa reconfiguração foi a ótica apontada por uma das organiza- doras do seminário, Patricia Fagundes, artista da cena, encenadora e docente da UFRGS: o bem comum supõe um senti- do de comunidade e coletividade cons- tantemente invalidado em um tempo impregnado de discursos e práticas que isolam as pessoas e responsabilizam o indivíduo por sucessos e fracassos de contexto mais amplo. Neste cenário, agenciamentos coletivos tornam-se um imenso desafio, exigindo exercícios de rebeldia que nadem contra a corrente dominante. Convergindo com essa abordagem, Jane Schoninger, coordenadora de Artes Cênicas, Visuais e de Arte Educação do Sesc RS, curadora do Festival e também organizadora do seminário, reconhece que reunir-se, pensar junto e criar em coletivo representa um gesto de resis- tência e reinvenção fundamental. Esta compreensão atravessou toda a concep- ção do evento, revelando sua vocação política e urgência ética. Como contraponto à lógica da indivi- dualização, destacaram-se visões afro- diaspóricas, indígenas e periféricas nas quais comunidade e coletividade são condições inalienáveis de existência. As artes cênicas, sob essa orientação, implicam construções coletivas no en- contro entre pessoas e na composição de microterritórios de sociabilidade que vislumbram outras realidades possíveis. Os espaços-tempos da cena, concre- tos e imaginados, compõem o que Patri- cia Fagundes denomina frestas e festas, ocupações dissidentes que se infiltram no possível e articulam impossíveis. A pergunta urgente que move toda refle- xão: Como nossos fazeres e saberes po- dem colaborar nos desafios de um mun- do sob o risco de sua própria destruição? A resposta passa por renovar e lem- brar futuros. Cada um dos cinco dias configurou-se como um território de re- flexão onde discussões, tessituras con- ceituais e a promessa de um teatro que, ao girar sobre si, projeta novas órbitas para a existência se sobrepuseram em trama densa e provocadora. Esta análise articula as vozes que se ergueram do chão da Zona Cultural, traçando um itinerário que se move da gênese do plural à epistemologia da dife- rença, da utopia pedagógica à coreogra- fia da urbe, finalizando na sabedoria da pedra e do asfalto, demonstrando como o teatro permanece um dos últimos re- dutos da esperança em um mundo em vertiginosa transformação. PRIMEIRO DIA Quando o Teatro Reinventa a Arte de “Estar Junto” O “nós” não preexiste aos encontros, mas surge – multiplicado e complexifi- cado – no espaço cênico. Esta premis- sa, aparentemente simples, demonstra densidade filosófica surpreendente nas artes cênicas do sul do mundo. Espe- cialmente nas práticas de aquilomba- mento e dramaturgias coletivas, esse coletivo se constitui como ética da pro- ximidade que desafia simultaneamente o individualismo neoliberal e as noções essencialistas de comunidade. A mesa COLETIVIDADE, COMUNIDA- DE, MUNDO: SÓ SOMOS SE NÓS, como provocação urgente, permitiu desenvol- ver reelaboração dos laços sociais e da redescoberta da arte de “estar junto”. Emmanuel Levinas, filósofo da alteri- dade, oferece chave de leitura ao propor que a subjetividade nasce da responsa- bilidade pelo Outro, jamais da autoafir- mação do Mesmo. No contexto das manifestações cênicas brasileiras, este paradoxo se manifesta concretamente: o ator / a atriz só “é” na relação com o outro ator / outra atriz, com o público, com a tradição cultural que o antecede. Embora cada artista chegue ao percur- so criativo com bagagem individual, nas criações grupais essas identidades se transformam mutuamente. Nessa direção, a fala de Soraya Mar- tins sobre “aquilombamento ético e es- tético” propôs ressignificação profunda do conceito. Para além da evocação his- tórica, Soraya apresentou “fabulação” – criação imaginária de novas formas de ser e estar negros no palco e no mundo, transformação epistemológica que bebe nas fontes da “negrura” de Leda Maria Martins e da “poética da relação” de Édouard Glissant. O quilombo, outrora espaço físico de fuga, transmuta-se em relacionalidade dinâmica, anunciação de outras huma- nidades onde alegria e amor se erigem como atos políticos, desvencilhados da lógica de performar dor para validação externa. Complementarmente, Pablo Sena, ao compartilhar a história do Bairro do La- guinho em Macapá e sua “Universidade de Samba”, trouxe a riqueza dos saberes populares e a capacidade da cultura de organizar vida e arte, evidenciando que inteligência e organização social não re- sidem apenas nos centros hegemônicos. Patricia Fagundes enriqueceu essa visão, descrevendo o fazer performático como experiência comunal mais “guer- rilheira” do que idealizada. Em mundo que exalta o “empreendedor de si mes- mo”, a cena se ergue como ato de rebel- dia, valorizando a fricção e o “brigar” como elementos essenciais para o fogo criativo. As “pequenas produções do sul do mundo” exemplificam essa processuali- dade. Não operam com elencos fixos ou hierarquias cristalizadas. O conjunto se faz fazendo, inventa-se a cada trajetória
RkJQdWJsaXNoZXIy NjI4Mzk=