Palco Giratório 2025
072 Esses “livros” narram danças, perfor- mances e vivências que raramente en- contram lugar nos tomos empoeirados, convidando o público a encontro íntimo e efêmero com histórias constitutivas do patrimônio cultural e imaterial. A Biblio- teca de Dança é, em si, ato de apropriação, convite a reimaginar o que pode ser um arquivo de memórias. Contudo, uma questão central e do- lorosa surgiu ao longo do dia: as “catra- cas” – barreiras visíveis e invisíveis ao acesso cultural. Desde o relato de Neto Machado sobre um senhor reticente à entrada da Biblioteca de Dança, que só se aproximou com convite direto, até a realidade de criadores periféricos sem tempo e recursos para se dedicar à sua expressão, estas barreiras se mostraram como um dos maiores desafios para a democratização cultural. Este tópico foi ampliado por Pablo Sena, que, a partir de sua experiência como con- selheiro de pauta, lutou para que ingressos para populações carentes fossem garanti- dos. As “catracas” constituem desafio que a criação precisa não apenas resolver, mas expor, desconstruir e confrontar. A programação encerrou com a perfor- mance do My House, coletivo de dança metropolitana criado em 2007. As dan- ças nascidas nas periferias constituem formas de ressignificação do ambiente urbano, transformando esquinas, praças e passagens em palcos de expressão e enfrentamento, materializando as consi- derações do dia sobre intervenção urba- na, invenção de linguagens e insurgência através do corpo. QUINTO DIA Quando a Rua se Torna Universidade da Vida Se o quarto dia nos mostrou como os corpos ocupam e inventam territórios na complexa trama metropolitana, o quinto e último dia do seminário desceu às esqui- nas e becos da metrópole para investigar as manifestações das vias públicas como vivência inventiva, campo fértil de sabe- res e ações que subvertem lógicas hege- mônicas e oferecem uma epistemologia da insubordinação. A mesa NA ESQUINA: A CULTURA DAS RUAS COMO EXPERIÊNCIA INVEN- TIVA, sob a mediação de Narciso Telles, trouxe Luiz Antônio Simas, historiador e escritor carioca especialista em expres- sões populares urbanas. Simas ofereceu sua expertise para investigar a força de uma sociedade ou grupo social de criar e manter vínculos de atração e perten- cimento. O historiador explorou como as mani- festações e tradições populares mantêm sua relevância e atração, especialmente em contextos metropolitanos, operando como formas de encantamento que re- sistem à dessacralização do mundo pro- movida pela racionalidade instrumental da contemporaneidade. Através de sua análise, compreen- demos as vias públicas não como cor- redor de passagem ou zona comercial, mas como palco primordial da vida e da criação, lugar onde a expressão é forjada na interação espontânea e na inventi- vidade. Os logradouros con- figuram-se como texto vivo a ser lido por quem tem sentidos afiados para apreender suas narrati- vas polifônicas e códigos de enfrentamento. Aprofundando essa compreensão, Simas evidenciou como rituais, festas, danças e ações expressivas operam como mecanismos de coesão, criando identidade grupal que supera as indi- vidualidades e conecta as pessoas com sensação de continuidade e pertenci- mento. É inteligência encarnada nas periferias, nas quadras de samba, nos saraus, nos bailes funk, nos grafites. Nestes ambientes, a produção artística é tecida na trama do cotidiano e se mani- festa como insurgência e celebração. As vias públicas são, para Simas, a universi- dade popular onde se aprende a “ginga”, a “malandragem” e a resiliência, reposi- tório vivo de epistemologias não-euro- cêntricas que desafiam a hegemonia dos saberes institucionalizados. A “política do encanto” que ele defen- de constitui estratégia de sobrevivência e afirmação, que transforma o cotidiano em poesia e a adversidade em força mo- triz para a elaboração de um “nós” que se constrói na diferença e na solidariedade. Materializando essas reflexões teó- ricas, a performance de Pâmela Ama- ro, atriz e arte-educadora de Porto Ale- gre atuante na cena do samba gaúcho, trouxe a teoria de Simas à vida. Sua apresentação conectou teoria e prática, demonstrando como as expressões po- pulares operam concretamente nos es- paços urbanos. O 6º Seminário Palco Giratório consti- tuiu um fluxo contínuo de pensamento que, ao longo de cinco dias, desenhou panorama complexo das artes cênicas como força vital. Esta trajetória intelec- tual teceu compreensão integral do pa- pel da expressão performática no século XXI, conectando diferentes territórios de criação e enfrentamento. Do aquilombamento ético e estético às críticas da inclusão normativa, das pedagogias insurgentes às apropria- ções metropolitanas, culminando na sabedoria dos logradouros, o seminário mapeou as diversas geografias da pro- dução artística e do pensamento crítico. Esta jornada expôs as interconexões en- tre estética, ética e política, demonstran- do como as manifestações cênicas ope- ram simultaneamente como laboratório de alteridade, campo de resistência às normatividades e ambiente de invenção de futuros possíveis.
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