Nota sobre a tradução Na arte da tradução, a dificuldade é uma aliada: como escreveu certa vez Haroldo de Campos, quanto mais difícil o texto original, mais recriável ele será, e mais sedutor enquanto possibilidade de recriação. Nesse sentido, há no Ocidente poucos textos tão sedutores a um tradutor quanto as peças e os poemas de Shakespeare. Escritor total, o Bardo elisabetano usa o condão da linguagem para nos conduzir do sórdido ao sublime, do hilariante ao devastador, às vezes na mesma página, às vezes na mesma estrofe. O tradutor há de acompanhá-lo nessa montanha russa de significações e melodias. E não se deve esquecer que o texto de Shakespeare é, em grande parte, formado por versos: assim, antes mesmo de aplicar-se à primeira linha, o tradutor deve decidir até que ponto tentará reproduzir em sua língua a forma urdida por Shakespeare no inglês elisabetano. Traduzir o verso como prosa, alterar a métrica, aumentar o número de sílabas, manter o mesmo tipo de verso mas duplicar ou triplicar as linhas, recriar as rimas, trocar o verso rimado por verso branco... Todas essas possibilidades existem e foram colocadas em prática. O que realmente interessa, no fim das contas, é que a recriação tradutória contenha em si mesma a magia da linguagem e dança entrelaçada de ideias e sonoridades que caracterizam a inebriante e infinita poesia de William Shakespeare. José Francisco Botelho Tradutor
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