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EDUCA SESC 14 2017 iceberg ”, não se define por si só, isoladamente. É preciso compreendê-lo de forma mais ampla. O significado do sintoma na criança também encontra sentido a partir do sintoma dos pais, da família e da cultura. Nesse sentido, uma abordagem, um diagnóstico ou mesmo uma clínica de crianças hiperativas, por exemplo, não se reduzem somente à criança, mas ao contexto. Não se trata de déficit ou falta de atenção: na verdade, há excesso de atenção, uma atenção e uma tensão pulverizadas, difusas, sem uma costura associativa, sem uma ordenação. A questão é que se perdeu a capacidade de parar, reter um evento em benefício de tantos outros, simultaneamente, velozmente, dissolvendo um momento em imagens, em uma série de presentes, uma descontinuidade. A hiperatividade em crianças, com alguns dos sintomas típicos como dispersão, atenção difusa, dificuldade de permanecer em uma mesma atividade por determinado tempo, irá encontrar significado num momento social também hiperativo, exagerado, explosivo e intolerante a perdas. As configurações do tempo de Pandora, da pandorga, do jogo de“bolita”ou dos contos de fadas cedem lugar ao tempo acelerado e volátil como a hiperatividade. Ou oscilante e cambiável como a bipolaridade, pelo tempo fragmentado, exterior ao sujeito, instantâneo, acelerado, à frente do aparelho psíquico, destituindo o sujeito do tempo de pensar e de se vincular para um tempo do tempo, um tempo que não permite obstáculos, frustração, dor, muito menos falta – é o tempo do ato! As crianças brincam menos? Fazendo um correlato entre memória, infância, tempo passado e tempo presente, o documentário Tarja Branca: a revolução que faltava , dirigido por Cacau Rhoden (BRASIL, 2014), apresentado pelo Instituto Alana e Maria Farinha Filmes, procura retratar e resgatar o essencial do brincar, a liberdade do tempo, do espaço e da criação, assim como as memórias da infância. Mostrando diversas brincadeiras e depoimentos, o filme remete à indagação sobre a tendência atual ao excesso de ocupação do tempo das crianças, com diversas atividades na agenda, aulas de todos os tipos, tornando o tempo muito complexo, formal, menos lúdico e vincular. A criatividade, a interação afetiva e o brincar com outras crianças cedem lugar ao acesso direto à imagem da coisa por meio de tablets , celulares, games e todo o universo tecnológico que amplia as janelas da casa, com operações e capacidades de resposta extremamente rápidas, pulverizando imagens, posições de desejo e formas de ser criança. Aqui, quero chamar a atenção para o transbordamento das imagens através do digital e do virtual, que faz prevalecer o real sobre o imaginário. As imagens se apresentam e invadem, sem permissão, vinculação ou interação com o outro, em forma real, puro ato, sem faz de conta, sem estórias ou contos de fada. Elas provocam uma intoxicação infantil em símbolos alucinatórios, em agendas de sucesso. Elas nos fazem esquecer que crianças não trabalham, crianças dão trabalho, crianças brincam, crianças choram. Nas conexões afetivas, vinculares às conexões em rede, virtuais, com fios e links frágeis, o brincar assume novas formas, uma vez que são introduzidas cada vez mais novas tecnologias, novos tipos de brinquedos, cada vez mais descartáveis. Nesse sentido, parecem ocupar um lugar de fetiche, imagens puras com possibilidades de compensação instantâneas, alucinatórias, mais do que propriamente interação, representação simbólica. A interação afetiva cede lugar à interação com objetos, jogos virtuais com capacidades de respostas e profusão de imagens e prazer extremamente rápidos. As atividades das crianças misturam-se com imagens em demasia, dificultando uma comparação, uma sequência mais ou menos ordenada do brincar. O imperativo do excesso e a rapidez tornaram-se a regra. A estrutura da criança já não se origina mais da interação com o outro e daquilo que produz obstáculo, pensamento ou mesmo do que pode ser adiado, mas do objeto que possa trazer satisfação de forma imediata e facilitada. Como consequência, aparecem marcas como o consumismo e a ausência de limites, sem a mínima frustração: pouco limite e excesso de amor, com altas doses de compensação e adrenalina, num tempo explosivo à frente do pensar, à frente de si mesmo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS FREUD, S. OMal-estar na Civilização (1930 [1929]). In:_____. O futuro de uma ilusão, omal-estar na civilização e outros trabalhos (1927-1931). Direção- geral da tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 67-153. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 21). HARVEY, D. Condição Pós-moderna. 6. ed. São Paulo: Loyola, 1996. LEBRUN, J-P. Ensinemos filhos a falhar.Veja Acervo Digital, edição 2142, 5 dez. 2009, p. 21-25. Disponível em: <http://veja.abril.com.br/acervodigital/home. aspx>. Acesso em: abr. 2015. LÉVY, P. AsTecnologias da Inteligência: o futuro do pensamento na era da informática.Tradução de Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993. RESENDE, A. M.Wilfred R. Bion: uma psicanálise do pensamento. Campinas: Papirus, 1995. Documentário Tarja Branca: a revolução que faltava. São Paulo: Maria Farinha Filmes, 2014. Disponível em: www.youtube.com/watch?v=KnV9_hL5vFg JOSÉ RENATO BERWANGER CARLAN, graduado em Psicologia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), é psicanalista associado do Círculo Psicanalítico do Rio Grande do Sul. [renato.carlan@yahoo.com.br ] A hiperatividade em crianças, [...] irá encontrar significado nummomento social também hiperativo, exagerado, explosivo e intolerante a perdas.

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