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EDUCA SESC 24 2017 INTRODUÇÃO Bastava observar mais detalhadamente o que os integrantes da Turma 5, composta por 20 crianças de cinco e seis anos, representavam naquele corre-corre no pátio ou na sala para perceber brincadeiras de “monstros” e, claro, outros personagens que se incumbiam de prender ou punir os monstrinhos arteiros que, de uma forma ou de outra, estavam agindo de maneira inapropriada. Além disso, observar o grupo de crianças e conviver com ele também mostrava que muitos combinados e orientações se faziam necessários diante de hábitos e atitudes que vinham à tona em vários momentos do cotidiano. Atritos e reações impulsivas eram frequentes, gerando desentendimentos que culminavam até mesmo em agressões físicas. Outras situações, como não se responsabilizar por organizar os materiais de uso coletivo e individual, brigas com os familiares, risos irônicos e relações pouco empáticas com colegas, foram ficando cada vez mais evidentes. Iniciou-se, então, uma pesquisa para estabelecer estratégias que envolvessem tanto o interesse da turma por monstros, quanto a necessidade de se falar em hábitos e atitudes de forma lúdica e prazerosa. METODOLOGIA Por intermédio do livro Monstruosidades , do autor Elias José, foi possível conhecer muitos monstros e suas atitudes. A cada monstro apresentado, olhares, suspiros... as feições das crianças iam se modificando. Conhecer o monstro que chuta e perceber suas características levava todos a lembrar de momentos em que isso já foi vivido, ou seja, os personagens se revelavam nas próprias histórias pessoais. Monstro que não pede “por favor”, monstro que não toma banho, monstro que fala palavrão, monstro que joga comida no chão, muitas foram as situações cotidianas que se associavam à narrativa. Por meio de uma adaptação do texto, algumas falas do autor eram substituídas por um linguajar mais acessível e que viesse ao encontro do que se objetivava com a turma. Entre as ideias principais de Bettelheim reside a afirmação de que os contos oferecem um sentido a situações que as crianças têm ou tiveram ocasião de viver, o que já contém por si um aspecto terapêutico. Os contos tradicionais ajudam na medida em que se trazem fatos que a própria criança vive em seu inconsciente e com os quais pode se identificar, como com as personagens, tendendo ao amadurecimento. Seu valor viria também de que auxiliam a transformar em fantasias representáveis o conteúdo do inconsciente, abrindo dimensões imaginárias. Estes benefícios estimulam as representações conscientes, diminuindo a nocividade das pulsões e do conteúdo inconsciente (GUTFREIND, p.31). No final da apresentação, silêncio. Era visível o olhar intrigado das crianças que, claro, haviam se identificado com um e outro personagem. Muitas expressavam essa relação oralmente, dizendo “igual aquele dia quando ‘A’ fez, foi bem assim, tirou meleca do nariz e comeu!” Então se lançou o desafio para que as crianças criassem seus próprios monstros através do desenho. Os trabalhos ficaram expostos nos corredores da escola e a inquietação começou a atingir os integrantes de outras turmas, além de ampliar as discussões. “...o desenho não é uma simples técnica terapêutica a ser aplicada, mas é linguagem, comunicação, relação, aliança, ressonância e participação emotiva. O desenho envolve, sim, a criança, que é sua autora, mas também leva o interlocutor da criança a assumir o ponto de vista dela para inventar, criar, realizar histórias e narrativas que ajudem a criança, por sua vez, a acrescentar, completar, trazer elementos novos à história desenhada que a ajudam a entrever novos horizontes e, reciprocamente, auxiliam o interlocutor a conduzir a criança a novas descobertas de significados e possíveis graus de liberdade (FRUGERI, p.11 ). Percebendo o olhar reprovador das crianças diante dos monstros, discutiu-se com a turma alguns episódios do cotidiano e o que poderia ser feito para que houvesse mudança de hábitos e atitudes. Uma assembleia se formou, os assuntos eram colocados em evidência e, coletivamente, criava-se regras. Todos de acordo com a decisão da assembleia, o combinado foi registrado, assinado por todos e fixado em local visível na sala. Em paralelo às discussões feitas nas assembleias, as experiências monstruosas foram ganhando novas possibilidades. Afinal, as crianças haviam feito o registro gráfico, os monstros tinham uma forma, um desenho, mas ainda não tinham uma história. Pensar no monstro que soltava pum, por exemplo, levava a turma a envolver-se em uma pesquisa sobre o que poderia provocar essa situação. Alimentos? Quais? Decidindo na assembleia como realizar essa pesquisa, recursos como internet, histórias e novas experiências iam surgindo. E apropriando-se dessas informações as histórias ficavam ainda mais verdadeiras.
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