educaSesc
5 EDUCA SESC 2017 estamos falando da criação de contextos de participação, ou seja, o contexto das crianças terem uma ação influente. Uma ação dotada de poder e autonomia como uma relação das crianças com os outros, com supervisão dos adultos, mas na qual elas possam ter voz própria e dirigir a sua vida, ao menos parcialmente. A ESCOLA CONTRIBUI PARA PROMOVER A AUTONOMIA DA CRIANÇA, ESPECIALMENTE NO BRASIL? A escola foi pensada não como o lugar da autonomia e da participação da criança, mas como o lugar da imposição da cultura que, em cada momento histórico, foi considerado necessário transmitir aos jovens. Todo o processo de construção da escola pública vem dos períodos republicanos pós-Revolução Francesa (1789-1799). Ainda que a escola pública seja anterior, foi depois da Revolução Francesa que ela teve sua disseminação pelo mundo inteiro como um lugar de transmissão de uma cultura e de assujeitamento das crianças a essa cultura. Esta escola funda-se na ideia expressa por Hobbes da tabula rasa , sustentada também por Montesquieu, que não questiona as capacidades infantis para um pensamento fundado na razão e na moral, mas defende que as crianças não têmmoral ou razão que não sejam as que os adultos lhes transmitem. Essa é a concepção clássica de escola como lugar de inculcação de uma moral e de uma razão e, portanto, um lugar de não autonomia, onde a criança não é considerada como um sujeito cultural. VOCÊ COSTUMA USAR A EXPRESSÃO “NO MODELO DE ESCOLA QUE SE TEM, ENTRA O ALUNO E A CRIANÇA FICA À PORTA”. QUAL O SIGNIFICADO? Há uma transfiguração do ser humano, que é a criança, no aluno, que é um ser formado pela escola. Atribui-se a ele uma forma, mas a verdade é que esta “invenção do aluno”, expressão do autor espanhol Gimeno Sacristán, força uma realidade preexistente que é a criança. E a criança tem forma e tem conteúdo, tem saber, tem cultura, temmodo de pensar, tem sentimentos. Em geral, é isto que a escola ignora e, ao ignorar, indubitavelmente, surge uma situação de tensão que, em última análise, resolve-se pela forma de disrupção do comportamento da criança que não se adapta e age contra a imposição da escola. Temos de inverter isso. Hoje, o que se defende é que a criança seja considerada como sujeito de direitos, cidadão, e, por isso mesmo, que as instituições como a escola sejam direcionadas para a participação infantil e autonomia das crianças nos termos que eu falei anteriormente: participação como ação influente e autonomia com capacidade de autorregulação pessoal. QUAIS OS PARADOXOS DA INFÂNCIA CONTEMPORÂNEA? Digamos que a infância contemporânea é, por definição, paradoxal. Em relação ao ponto de vista tradicional – há até uma expressão antiga: “é de pequenino que se torce o pepino”– para que a criança desabroche como um fruto completo é preciso “torcê-la”. Educação significa castigo; amor significa violência. Isso tudo é paradoxal. A situação da criança paradoxal é inerente à própria constituição da infância na sociedade. Enquanto a criança for entendida como um outro subordinado à diretiva do adulto, necessariamente, esta situação é paradoxal. Contemporaneamente, nunca se falou tanto em autonomia da criança e nunca a criança ficou tão confinada, do ponto de vista do seu tempo e do seu espaço, às diretivas dos adultos. As crianças não circulam nas ruas a pé. Nesse sentido, elas já forammuito mais autônomas, ocupavam cidades, seguiam seus próprios passos e, hoje, isso não acontece mais. Andam nos carros de seus pais ou nos ônibus escolares. Roberto Furtado
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