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7 EDUCA SESC 2017 “impõem”as suas próprias regras. Quanto aos brinquedos interativos, existem fundamentalmente dois tipos de juízo: um, que estes brinquedos e estas tecnologias têm efeito colonizador – as crianças ficam subordinadas a estes jogos e brincadeiras; outro, é que as crianças reagem a estes jogos e a estas brincadeiras utilizando-os em função de suas próprias culturas e, portanto, das suas próprias formas de pensar. Então, é na tensão entre estas duas realidades que as crianças vivem, entre a ameaça da colonização e a capacidade de dar a volta e de reagir, dando um novo significado para estes jogos. Esta é uma tensão permanente. POR OUTRO LADO, EXISTE UM MOVIMENTO DE RESGATE DAS BRINCADEIRAS ANTIGAS. QUAL A IMPORTÂNCIA DE PRESERVÁ-LAS? Há um enorme patrimônio brincante: jogos, brinquedos e brincadeiras, uns mais estruturados, outros não, que ameaçam perder-se. Neste momento isso é claro. Muitas brincadeiras do meu tempo – até porque eram na rua – não existemmais. Eu gosto de contar para minhas alunas, que vão ser professoras do ensino fundamental, que nós, crianças de seis anos, todos meninos, tínhamos como instrumentos de brincadeiras espeto e canivete. Não era um objeto de defesa, mas de brincadeira. Uma brincadeira era espetar o canivete no chão, tipo um tiro ao alvo, e aquele movimento ia formando figuras geométricas. Eram brincadeiras coletivas, de disputa, de competição, vencidas por quem tinha os canivetes mais afiados e a pontaria mais afinada. Hoje, uma criança que leva um canivete para escola, no mínimo, vai ter seu caso encaminhado para uma comissão tutelar. Estas brincadeiras desapareceram e outras vão desaparecer definitivamente. A situação atual, em consequência dos jogos eletrônicos, é de uma maior concentração do tempo e também do espaço da criança. E, diferentemente das brincadeiras tradicionais, que exigiam uma ação criativa por parte das crianças, uma ação de interpretação das regras ou até mesmo da criação de regras novas, isso não acontece com estes jogos tecnológicos. Há perdas, mas também ganhos. Claro que as crianças hoje têmmuito mais informações do que tinham no passado, têm possibilidades de entrar em outros mundos, reais e imaginários, que não tinham no passado, conectarem-se uns com os outros. COMO A QUESTÃO DA INDIVIDUALIDADE E DA COMPETIÇÃO GERADA PELAS NOVAS TECNOLOGIAS SE INSERE NO CONTEXTO DA SOCIOLOGIA DA INFÂNCIA? Estas tecnologias, muitas vezes, estão associadas à ideia do individualismo institucionalizado. Mas aqui há um ponto importante: uma das características estruturantes das culturas infantis é a interatividade; a criança brinca sempre com o outro, ainda que o outro possa ser imaginário e virtual. Suas produções culturais são feitas da articulação e da interação com o outro. Por exemplo, todas as crianças do mundo desenham o sol, e muitas colocam olhos, nariz e boca. Elas aprendem umas com as outras. Significa que há uma produção coletiva da infância, que é transmitida entre as crianças, por desenhos, alguns clichês, algumas formas coletivas e brincadeiras. COMO CONCILIAR ISSO COM A IDEIA DA CRIANÇA FIXA EM SEU CELULAR, EM SEU VIDEOGAME, INDIVIDUALMENTE, SEM FALAR COM OS OUTROS? Há uma certa virtualização dos processos interativos, que dá origem a situações paradoxais com as crianças, como estarem umas ao lado das outras e se comunicarem por mensagens. Isso é outra realidade, de virtualização das relações brincantes. Agora, o modelo que está subjacente à tecnologia é esse modelo do individualismo institucionalizado. Existe uma radicalização deste sentimento de individualização, potencializado pelas instituições por meio da produção de competitividade, da ideia de ser diferente, de ser melhor do que os outros, de obter melhores resultados. Neste contexto, quem obtém os melhores resultados temmais ganhos no futuro, porque esta é a sociedade em que vivemos. Uma sociedade competitiva em que tudo está em disputa, porque tudo é considerado um mercado, em que há ganhos e perdas nas trocas que se faz. Essa é a ideia A criança brinca como outro, ainda que o outro possa ser imaginário e virtual. Suas produções culturais são feitas da articulação e da interação como outro. Roberto Furtado
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