educaSesc
9 EDUCA SESC 2017 portuguesa até hoje, em vez de escola de educação infantil. Isso teve várias vicissitudes ao longo dos anos. Durante algum tempo, as professoras de educação infantil eram as jardineiras da infância. Assim, a educação nos jardim de infância é, sobretudo, uma atividade de livre expressão das crianças e por isso a participação é uma condição desta livre expressão. Já na Escola Fundamental existem outras tradições metodológicas, inspiradas em modelos que foram muito regulatórios, como os de Comenius – ensinar tudo a todos como se fosse um só –, e que se subordinam à ideia de uma disciplina mental e corporal para a aprendizagem da cultura escolar. AO RESTRINGIR O ESPAÇO PARA PROGRAMAS MAIS ABERTOS, QUE POSSIBILITAM AO PROFESSOR UTILIZAR A IMAGINAÇÃO OU IMPROVISO, MUITAS VEZES, IGNORANDO A CULTURA DO ALUNO, PODEMOS DIZER QUE A ESCOLA ESTÁ ULTRAPASSADA? Há muita gente que defende a ideia de que, sim, a escola deixou-se tornar obsoleta. Alguns colegas têm utilizado correntemente a afirmação: trabalhamos hoje em escolas do século XIX, com professores do século XX e alunos do século XXI. São três séculos que coincidem na mesma instituição. Ou seja, esta velhice vem da escola não estar adaptada às crianças e aos jovens que nós temos. E a escola vai ter que se adaptar, mais cedo ou mais tarde, se não vai desaparecer. NO BRASIL, TEMOS ASSISTIDO COM ALGUMA FREQUÊNCIA A SITUAÇÕES DE VIOLÊNCIA DE ALUNOS CONTRA PROFESSORES EM RESPOSTA À COBRANÇA POR DISCIPLINA EM SALA DE AULA. ESSES CASOS DECORREM DA OBSOLESCÊNCIA DA ESCOLA? Existe a violência, que é mais que indisciplina, e é indesculpável, e a indisciplina cotidiana nas escolas. É verdade que as escolas acabam se passa hoje – e da humanização. Trata-se de uma profissão que processa pessoas, em que há o trabalho sobre pessoas e não sobre máquinas, objetos, e, neste caso, sobre seres mais frágeis, mais vulneráveis, que são as crianças. É sempre um trabalho que, de alguma forma, tem esta virtualidade de o educador se compreender melhor como ser humano, na exata medida em que lida com os mais frágeis e que estão no processo inicial de formação e desenvolvimento. Muitos professores potencializam seus recursos e a sua própria motivação profissional em torno desta ideia da humanização. Criar a humanidade na relação com o outro e desenvolver a relação com a criança são desafios profissionais muito grandes, porque implicam uma ruptura com as imposições exógenas, como as determinações diretivas. Trabalhar com a criança não é utilizar plataformas digitais, como acontece na maioria das profissões administrativas na atualidade. Exige imaginação criadora, capacidade de compreensão do outro, atenção à diferença, humildade para compreender esta diferença, sentido de cooperação, trabalho colaborativo e, simultaneamente, uma enorme resistência às pressões da máquina burocrática e administrativa que Trabalhar com a criança... exige imaginação criadora, capacidade de compreensão do outro, atenção à diferença. sendo muito desmotivadoras para as atividades infantis e essa situação, muitas vezes, leva à disrupção comportamental: indisciplina, desatenção, ruído, não ligar para o que o professor diz. A indisciplina, fundamentalmente, decorre dos modelos pedagógicos que são pouco atentos àquilo que é próprio da criança, na sua forma de agir e atuar, e ao seu sentimento de felicidade. A disrupção comportamental decorre, muitas vezes, desta desatenção em relação às motivações da criança e tem que ser trabalhada isoladamente pelo professor e também pelo coletivo de professores. Mas tem que ser trabalhada. QUAIS SÃO OS DESAFIOS PROFISSIONAIS DOS PROFESSORES NO SENTIDO DE INSERIR A CIDADANIA NA ESCOLA? São desafios enormes e de grande complexidade. Eu acho que os professores hoje vivem uma tensão entre uma condição de desprofissionalização ou, se quiser outra expressão, proletarização, que é a criação de uma situação de profissão dependente, sem autonomia, muito marcada por lógicas de imposição exógenas, pelos diretores, pelos dirigentes públicos e, às vezes, pelos próprios materiais didáticos, com perda inclusive da sua própria condição salarial e social – é muito grave o que Roberto Furtado
Made with FlippingBook
RkJQdWJsaXNoZXIy NjI4Mzk=