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37 EDUCA SESC 2018 Com base no fato de que o olhar sustentado é pré- requisito para o processo de alfabetização de pessoas com autismo, o uso do tablet passa a ser um ótimo aliado para o desenvolvimento dessa habilidade. A experiência de trabalho que compartilho nesse artigo teve uma aplicabilidade prática de caráter qualitativo, que ocorreu no segundo semestre de 2017, na Sala de Recursos Multifuncionais – espaço destinado à complementação e suplementação das necessidades educacionais dos alunos da Educação Especial – do já referido CIEP, onde atuo com professora do Atendimento Educacional Especializado (AEE). Teve uma duração aproximada de seis meses, contando com atendimentos que aconteciam duas vezes por semana, com duas horas de duração. Teve a participação de duas crianças com autismo, protagonistas nessa ação: Pedro (quatro anos) e João (cinco anos). Gabriel apresentava comunicação oral preservada. No entanto, necessitava de autorregulação comportamental por apresentar baixa tolerância às frustrações e inflexibilidade, especialmente nas mudanças de rotina. Apresentava ainda prejuízos nas relações sociais, uma vez que não aceitava as regras mínimas de convivência com seus pares, entre outras questões. Gustavo tinha dificuldades de fala, falta de atenção compartilhada e sustentada, uso inadequado do olhar, falta do apontar declarativo, dificuldade de autorregulação comportamental, baixa tolerância às frustrações e prejuízos nas relações sociais em relação aos seus pares, entre outros. O AUTISMO E A TECNOLOGIA Apesar do ponto de partida para esse projeto ter sido o curso feito no IHA, foi necessário maior aprofundamento teórico sobre o assunto para garantir o êxito do projeto. Por isso, contribuições de autores como Pierre Lévy foram de fundamental importância, especialmente ao mencionar que: [Ao] Pensar a cibercultura: em geral me consideram um otimista. Estão certos. Meu otimismo, contudo, não promete que a Internet resolverá, em um passe de mágica, todos os problemas culturais e sociais do planeta. Consiste apenas em reconhecer dois fatos. Em primeiro lugar, que o crescimento do ciberespaço resulta de um movimento internacional de jovens ávidos para experimentar, coletivamente, formas de comunicação diferentes daquelas que as mídias clássicas nos propõem. Em segundo lugar, que estamos vivendo a abertura de um novo espaço de comunicação, e cabe apenas a nós explorar as potencialidades mais positivas deste espaço nos planos econômico, político, cultural humano. (LÉVY, 1997, p.11) Lévy, assim como outros autores, serviu-me de grande inspiração, principalmente por acreditar numa pedagogia de inclusão na qual sejam utilizados recursos tecnológicos nos espaços da sala de aula. Esses recursos são de grande interesse para as crianças, levando-as a se sentirem estimuladas e fazendo com que os educadores repensem suas práticas educativas. No caso específico do autismo, percebe-se uma carência pedagógica no desenvolvimento de habilidades importantes em sala de aula, como cita Orrú (2012b, p.86) ao afirmar que “o autismo é uma síndrome comportamental que se apresenta antes dos três anos de idade, com comprometimentos nas áreas de comunicação, interação social e no uso da imaginação e sua função simbólica”, fato que ratifica a importância do uso da tecnologia. Mesmo para autismo de nível severo, é possível contar com o uso dessas ferramentas para o desenvolvimento de tais habilidades. Sob a perspectiva histórico-cultural, podemos refletir sobre o seguinte pensamento: “o bom ensino é aquele que se adianta ao desenvolvimento, nos alerta para a importância de o professor interferir na zona de desenvolvimento proximal dos alunos, sejam eles autistas ou não” (VYGOTSKY, 1993, p.65). Mais uma vez é ratificada a importância de estarmos antenados aos novos tempos, lembrando que nossos “nativos digitais”estão ávidos por novos conhecimentos e novas tecnologias e isso ocorre não só com as pessoas atípicas, mas também com as neurotípicas. Se pensarmos dessa forma, proporcionaremos inclusão e contribuiremos para a diminuição do preconceito em relação às pessoas com deficiências. Schmidt (2013) cita as contribuições de Leo Kanner (1943) e de Hans Asperger (1944), que definiram o que hoje conhecemos como autismo. Por isso, não podemos deixar de registrar a importância dessas duas personalidades e mergulhar em seus estudos, por trazerem informações fundamentais e que são a cada dia ampliadas, graças aos seus estudos iniciais. Serra (2018) sugere que, antes de se iniciar o processo de alfabetização propriamente dito, deve-se desenvolver o que é chamado de “precursores de linguagem”, ou seja, os pré- requisitos básicos que asseguram um bom desenvolvimento da alfabetização das crianças com autismo. Isso ocorre por que pessoas com TEA apresentam ausência de um ou mais desses precursores, que em síntese são caracterizados pela ausência do olhar sustentado, atenção conjunta e compartilhada, imitação arbitrária, apontar declarativo e imperativo, sorriso responsivo, vocalização, movimentos antecipatórios e fala referencial. Assim, o trabalho de utilização do tablet com crianças com autismo teve também grande e especial inspiração no trabalho da Dra. Dayse Serra, que há cerca de 30 anos pesquisa sobre autismo. O que se buscou no trabalho de utilização
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