educaSesc#3

11 EDUCA SESC 2019 levantamento de teóricos da psicologia infantil e de autores atuais sobre a temática do brincar. E, a partir do reconhecimento da importância do brincar no desenvolvimento das crianças, foi problematizada a questão do gênero nas brincadeiras. EIXO TEMÁTICO: identidade. PALAVRAS-CHAVE: criança, brinquedos, brincadeiras, construção social, identidade, gênero. INTRODUÇÃO Os brinquedos e outros recursos aos quais a criança recorre para brincar são elementos da cultura que permitem a manifestação de sentimentos e de sensações. Por meio desses elementos, a criança consegue criar representações na interação com o outro sobre as suas visões sobre si e sobre o mundo que a rodeia. A brincadeira, além de contribuir para o desenvolvimento cognitivo, é fundamental no processo de aquisição da linguagem, no processo de simbolização, na medida em que permite a liberdade de criação da criança (Piaget, 1975; Vygotsky, 1998). As crianças passam a reproduzir, na relação com o(s) outro(s), o que lhes é repassado como verdade, como norma, como exemplo. Esses saberes implantados pela sociedade excludente, androcêntrica e heteronormativa tornam-se hegemônicos, reflexos de uma sociedade e de escolas que não abrigam, que não reconhecem as diferenças étnicas, sexuais, religiosas e outras tantas que constituem os sujeitos. Estudo realizado por Finco, em 2003, começou a levantar questionamentos sobre as formas de brincadeira de meninos e de meninas. A sociedade afirma que “Elas preferem as bonecas, eles os carros”, e também que “Elas brincam de roda e eles jogam bola”. Entretanto, os educadores têm o dever de não enxergar como natural o fato de que meninos e meninas possuem papéis e comportamentos socialmente pré-determinados. REFERENCIAL TEÓRICO Na teoria de Klein (1991), o brincar é a forma natural de expressão da criança de libertar-se de seus sentimentos e de suas angústias, da mesma maneira que, em certas formas de terapia para adultos, o indivíduo ameniza as suas dificuldades falando. De acordo com Klein, a variedade de situações emocionais que podem ser expressas por meio de atividades lúdicas é ilimitada: por exemplo, sentimento de frustração e de ser rejeitado; ciúmes do pai e da mãe; agressividade; o prazer; ansiedade, culpa e necessidade premente de fazer reparação. No brincar da criança, também encontramos a repetição de experiências e detalhes reais da vida cotidiana, frequentemente entrelaçados com suas fantasias (Klein, 1991). Na visão deWinnicott (1975), outro ponto muito importante dentro da teoria do desenvolvimento infantil, é “apenas no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral”, e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o seu eu (self), o que está na base do processo de estruturação psíquica. Esse autor coloca o brincar como o começar a dar sentido às coisas, experimentar as sensações do mundo, é o elo entre a criança e a realidade que a cerca, e é através dele que ela vai se apossando do meio em que está inserida. Tanto Klein quanto Winnicott acreditam que é pelo brincar, simbolizando, falando e representando os conteúdos que as perturbam, que as crianças revelam e podem elaborar momentos traumáticos que ocorreram durante seu desenvolvimento. Piaget (1975) também teorizou contribuições imprescindíveis para a compreensão do desenvolvimento cognitivo das crianças. De acordo com esse autor, ao longo do desenvolvimento da criança ocorrem três formas de jogos: são os jogos de exercícios, os jogos simbólicos e os jogos de regras. O jogo de exercício é o primeiro a aparecer no desenvolvimento da criança, prolongando-se até os primeiros 18 meses de vida. São jogos que não supõem qualquer técnica em particular, são apenas exercícios que implicam no próprio prazer e funcionamento dos gestos. No jogo de exercício não está suposto o pensamento, nem qualquer estrutura representativa especificamente lúdica, são jogos que implicam basicamente atividades motoras de repetição de gestos e movimentos. Através desses jogos acontecem os primeiros contatos da criança com os objetos, com as pessoas e com o mundo ao seu redor. Já o jogo simbólico surge na criança a partir do segundo ano de vida juntamente com o aparecimento da linguagem e da representação, quando a criança começa a substituir um objeto ausente por outro. A função do jogo simbólico para a criança consiste em assimilar a realidade, ou seja, através da situação imaginária, realiza sonhos, revela conflitos e se autoexpressa, reproduzindo diversos papéis, imitando situações da vida real. Finalmente, por volta dos 4 e 7 anos surgem as primeiras manifestações dos jogos com regras, as quais se desenvolverão dos 7 aos 12 anos, inclusive na vida futura. Nesta fase, a criança perde progressivamente o egocentrismo inicial que vai sendo substituído por um cooperativismo, tornando sua atividade mais socializada. Para Piaget: [...] os jogos de regras são jogos de combinações sensório-motoras (corridas, jogos de bola de gude ou com bolas, etc.) ou intelectuais (cartas, xadrez, etc.), com competição dos indivíduos (sem o que a regra seria inútil) e regulamentadas quer por um código transmitido de gerações em gerações, quer por acordos momentâneos (1975, p. 184-185). Se a criança não brinca, é sinal que algo acontece de errado no curso de seu desenvolvimento; é sinal de que está em sofrimento psíquico. A criança que brinca, é a criança que teve uma boa elaboração do espaço potencial com sua mãe, é a Todas as crianças, meninos e meninas têm o direito de acesso aos mesmos espaços, às mesmas oportunidades de manifestaremde forma livre suas intenções.

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