educaSesc#3

EDUCA SESC 12 2019 Brincar é dar sentido às coisas, experimentar as sensações do mundo. criança que aprendeu a estar sozinha e sentir-se segura, é a criança que está elaborando a sua capacidade de criatividade, ou seja, é uma criança saudável. Todavia, a brincadeira compulsiva, a brincadeira repetida pode evidenciar a ameaça de um excesso de angústia, o que também pode ser sinal de sofrimento psíquico. Partindo de teóricos que pensaram sobre o brincar, estudos realizados sobre as relações de gênero e crianças (Biedrzycki & Goellner, 2017; Novakowski, Costa, & Marcello, 2016; Saavedra & Barros, 1996) confirmam que meninos e meninas demonstram comportamentos, preferências, competências, atributos de personalidade mais apropriados para o seu sexo, seguindo, desde bem pequenos, as normas e padrões estabelecidos socialmente. Todavia, meninos e meninas, apesar de toda essa pressão exercida pelos estereótipos dos brinquedos, ainda conseguem manifestar seus desejos e vontades através dos brinquedos e das brincadeiras. Assim, considera-se que o brincar, o faz-de-conta e as fantasias das crianças mostram que elas possuem papel ativo na construção social das suas relações e das identidades de gênero. Metodologia, Resultados e Discussões Por meio de uma revisão narrativa da literatura, foi realizado um levantamento de teóricos da psicologia infantil e de autores atuais sobre a temática do brincar. A partir do reconhecimento da importância do brincar no desenvolvimento das crianças, foi problematizada a questão do gênero nas brincadeiras. Ademais, essa reflexão visa ampliar a discussão sobre essa temática nas escolas. Considera-se que as brincadeiras são uma forma de vivenciar o mundo e, por isso, trazem um sentido que será diferente e único para cada um, independentemente se é uma menina ou se é um menino. A brincadeira ocupa um lugar importante no processo de construção das identidades das crianças. Assim, é papel dos adultos incluir as crianças nas reflexões, respeitá-las em suas experimentações, e compreender que as crianças participam dos processos de mudanças que caracterizam a sociedade contemporânea (Faria e Finco, 2011). As diferenças que as crianças nos mostram são elementos importantes para compreendermos os modos como as infâncias contemporâneas são construídas. Pensar como são construídas culturalmente as relações de gênero na sociedade e como essas relações constituem as identidades de meninas e de meninos na educação infantil é fundamental no sentido de desconstruir as relações de poder e as desigualdades entre os gêneros, construídas historicamente, que passam a fazer parte do cotidiano que se tornam naturalizadas. Essas relações e as atribuições fornecidas socialmente a elas perpassam a maneira como as crianças brincam, e isso afeta o seu desenvolvimento cognitivo e emocional. O momento da brincadeira configura-se como um espaço no qual as crianças podem fazer uso de uma liberdade criadora, além de participar de momentos de socialização, desenvolver a afetividade e, assim, construir suas identidades e dar sentido ao seu mundo de forma prazerosa, por meio das experimentações oportunizadas pelo ato de brincar. Todas as crianças, meninos e meninas têm o direito de acesso aos mesmos espaços, às mesmas oportunidades de manifestarem de forma livre suas intenções, desejos e brincadeiras sem que isso cause estranhezas e demarcações de limites, principalmente no que se refere ao gênero. CONCLUSÕES FINAIS O ato de brincar é fundamental para a criança, é uma importante forma de aprendizagem e de compreensão do mundo, além de ser fonte de prazer e uma maneira de expressão (Winnicott, 1975). Por isso, tanto faz o gênero. A separação das brincadeiras por gênero pode ser prejudicial, pois limita o universo lúdico da criança, o que interfere em seu desenvolvimento cognitivo, socioemocional, motor. A criança deve explorar, descobrir possibilidades e exercer a sua criatividade sem imposições. Quanto mais a criança estiver livre para explorar e descobrir, mais rica será essa experiência e maior o seu aprendizado e o seu desenvolvimento. Os educadores devem abrir espaço para questionamentos sobre as construções sociais de papéis e de comportamentos que determinam o que é esperado de meninos e meninas. As discussões sobre gênero podem contribuir de maneira significativa para a construção de uma sociedade mais justa para todas e todos. A forma como a escola organiza as suas práticas, deixando disponível e dando acesso a uma diversidade de brinquedos para as crianças experimentarem e conhecerem diferentes papéis, sem determinar posições e comportamentos para meninos e meninas, favorece que não sejam determinados papéis específicos em função de seu sexo. É importante relembrarmos o papel da criança como um indivíduo ativo no conhecimento, capaz de desenvolver pensamento crítico. A criança deve ter lugar na construção social das relações de gênero no sistema educacional. REFERÊNCIAS BJEDRZYCKI, B. P.; GOELLNER, S. V. O brincar na construção da identidade de gênero de crianças internadas em um hospital de alta complexidade. Revista Corpoconsciência, v. 21, n. 1, p. 20-32, 2017. FARIA, A. L. G. de; FINCO, D. Sociologia da Infância no Brasil. Campinas, SP: Autores Associados, 2011. FINCO, D. Relações de gênero nas brincadeiras de meninos e meninas na educação infantil. Revista Pro-Posições, v. 14, n. 3, p. 89-101, 2003. NOVAKOWSKI, L.; COSTA, M. V.; MARCELLO, F. A. Representações de feminino e masculino em pesquisa com crianças. Revista Zero-a-seis, v. 18, n. 34, p. 1-9, 2016. PIAGET, J. O nascimento da inteligência na criança. Rio de Janeiro, Zahar, 1975. SAAVEDRA, L.; BARROS, A. M. Elas preferem as bonecas, eles os carros: aquisição dos estereótipos do género. Psicologia: Teoria, Investigação e Prática, p. 129-160, 1996. WINNICOTT, D. W. (1975). O brincar e a realidade, Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996. DAIANE SILVA DE SOUZA é Psicóloga Escolar da Gerência de Educação e Ação Social do Sesc/RS (CRP 07/25249). Especialista em Psicologia Clínica com Ênfase em Avaliação Psicológica (UFRGS), Mestre em Psicologia do Desenvolvimento Humano e da Personalidade (UFRGS).

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