educaSesc#3

19 EDUCA SESC 2019 DENISE GOULART É orientadora e coordenadora de Área do subprojeto de Alegrete. LILLIAN CLAUSSEN é acadêmica da UERGS de Licenciatura em Pedagogia (Alegrete – RS). ROCHELE SANTAIANA é acadêmica da UERGS de Licenciatura em Pedagogia (Alegrete – RS). EGUI BALDASSO é jornalista, escritor e palestrante. Autor dos livros Sequência de rabiscos, Ed. Viseu, 2018 e #Vailá, Ed. Pubblicato, 2019. QUEM ESTÁ ESCUTANDO O GRITO DOS JOVENS? “Pergunta de velho ninguém responde”. A constatação/queixa que ouvi uma vez de um senhorzinho já bem habituado aos seus“entas” nunca mais saiu da minha cabeça. Embora inusitado, comecei a perceber que o reclame faz parte da realidade de muitos. Quanto maior a idade, menor a atenção dada pelas pessoas a quem está perguntando. Aliás, cuide para não manter esse péssimo hábito de preteri-los. Cada um de nós, no auge da nossa complexa adultícia, somos quem colaboramos para que essa prática se concretize em diversos casos. Mas esse texto não é sobre velhos, idosos, mais experientes e tantos outros termos utilizados para definir quem já trata a vida quase mais como um passado que ficou para trás do que um presente ainda cheio de vida. É justamente na ponta inversa do jogo para onde ele pretende caminhar. Porque, se pergunta de velho ninguém responde, resposta de jovem ninguém escuta. Uma a uma, andam encontrando iguais silêncios preocupantes. Opiniões, tentativas, inquietações, pedidos de socorro. Quem presta atenção em tudo isso? Quem está falando com os jovens? Mostrando que o mundo é tão ou mais difícil do que dizem, mas que há uma imensidão de oportunidades para todos eles lá fora? Adolescente leitor e aprendiz de escritor que fui, sempreme utilizei dos textos e livros parame comunicar. Às vezes comigomesmo, escondendo o que escrevia ou as poesias que soariampiegas parameus colegas, e preferiamantê-las exclusivas às bibliotecas por ondeme esgueirava. Essa relação coma literatura amparou omeumundo. Foi o ouvido que, muitas vezes, sonegaram-me lá fora. Encontrei amigos em meios às páginas, histórias gêmeas às minhas correndo parágrafos, e ganhei compreensão de quemnemme conhecia. Hoje, apesar de tantas possibilidades que a tecnologia criou para comunicação, arrisco a dizer que essamesma relação pode ajudar, emuito, jovens de todas as classes e ambientes. Nos últimos anos, tenho tido a oportunidade de parar e conversar um pouco com centenas deles, levando o recado de um ex-garoto que morria de medo de um futuro que nunca o matou, embora esse fosse um dos grandes temores. Dividir as angústias que fizeram parte da minha adolescência, atravessaram a linha da vida adulta e ainda insistem em rondar meu travesseiro e momentos nos quais eu me questiono o que raios eu estou fazendo dos meus dias. Onde eu iria quando a escola não fosse meu principal destino a cada manhã? E quem iria comigo? foi dito ser o único possível. Queria estudar, queria trabalhar, queria tentar. Queria tudo que o mundo lhe garantiu ser estrada obrigatória para “dar certo”. Mas talvez quisesse tudo isso ao seu modo, do seu jeito. Mas ninguém o escutava. E aquilo incomodava. O relato de tudo isso não foi direto. Veio de uma professora que trabalhou o meu livro Sequência de Rabiscos em sala de aula. No dia seguinte à atividade, o estudante que, inicialmente relutou e praguejou quando a leitura foi proposta, a abraçou e, tremendo e ainda inseguro, falou que pela primeira vez alguém havia dito que ele poderia ser o que quisesse. Inventar todos os seus sonhos. Com todo esforço do mundo, com a consciência de que, quanto mais diferente dos padrões é o sonho, maior a dificuldade de conquistá-lo, mas que poderia. Eu não ensinei a reinvenção da roda. Não levei uma ideia genial e tão inovadora que poderia mudar o mundo dele da noite para o dia. Foram palavras que fizeram isso. Foram ouvidos. Foi atenção. Foi o assustadoramente simples fato de alguém tocar o coração com o óbvio, e abrir um universo à sua frente. Naquela noite eu repensei como estamos lidando com as pessoas. O nosso tempo emprestado aos outros. Independentemente da idade. Porém, me dei conta que os mais velhos já passaram por um bocado de vida, os adultos têm a si mesmos para trocarem experiências. Mas o jovem assiste a tudo isso de fora, sem a mínima ideia de como vai ser quando chegar a vez deles, que já bate na porta. Eles querem entrar, querem viver. Para isso precisam ser escutados. Saber que importam. E que o mundo precisa deles mentalmente saudáveis para serem os novos adultos. Com medos e aflições, mas com ouvidos plenos a escutá-los. POR EGUI BALDASSO Eles querem entrar, querem viver. Para isso precisam ser escutados. Em um desses encontros com alunos à beira de uma faculdade, o inevitável trabalho para começar a enfrentar as broncas com as próprias pernas e aprender a errar os próprios erros, tive o retorno de um garoto sobre a palestra, e o que refletiu no mundo dele aqueles minutos de troca. Me abordou ao final, e pediu para que eu “nunca parasse, que seguisse falando com os jovens e escrevendo coisas tão sinceras”. Notei que era tímido, e depois soube que não contava commuitas chances de dividir com colegas e família tanta informação e vida que fervilhava naquela cabeça ainda em formação. Tinha dificuldades latentes. De se comunicar, de encarar o que gostava como rotina e não apenas anseio. Limitava-se a sobreviver, deixava os dias passarem, mas não alimentava paixões, tampouco as inventava. Vida sem graça, sem verdade. De aparência. Medo da incompreensão. Falta de referências. Sentimento de que estava fora do padrão que lhe

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