educaSesc#3

45 EDUCA SESC 2019 compreende-se que seja na ideia da diferença que se encontre o princípio do equilíbrio das relações humanas. A diferença é a multiplicidade, a diversidade e a singularidade que terá que ser compreendida como complementaridade, porque“a lógica das diferenças é a lógica das relações”. (MACEDO, 2005, p. 12). Se a lógica das diferenças é a lógica das relações, compreende-se que o princípio da inclusão se encontre na lógica da diferença que parte do princípio do relacionamento, da necessidade de abandonar o instinto protecionista de sobrevivência para a busca da complementaridade. Inclusive a identidade resulta desse processo de aprendizagem infinito de busca do novo que se estabelece pelo equilíbrio entre as semelhanças e as diferenças. Nesse equilíbrio reside o processo de aprender a respeitar o que “significa deixar como está, não no sentido passivo do termo, mas como uma escolha, como um carinho, como um respeito às diferenças”. (MACEDO, 2005, p. 15). A cultura da diferença deve ser pensada como a cultura da fraternidade tanto no que diz respeito à diversidade e à singularidade quanto no que se relaciona às semelhanças entre as pessoas. Nesse proceder, talvez as pessoas possam, finalmente, usufruir do sentido de completude que a inclusão representa no todo que compõe o sociocultural humano, porque “na inclusão, semelhanças e diferenças relacionam-se de modo independente, indissociável”. (MACEDO, 2005, p. 15). Pelo sentido do indissociável, compreende-se que a construção de uma educação inclusiva, de uma escola para todos, deva passar pela desconstrução da cultura social da semelhança. Da maneira como a escola se apresenta no mundo atual, se encontra centrada unicamente nesse critério de classificação do que pertence ou do que não pertence. Ao contrário da cultura da semelhança, a cultura da diferença é relacional. Processo que deve passar a fazer parte do grande desafio da atualidade para que a escola, que tem suprimido o direito de tantas pessoas à educação, faça parte da vida de todas elas. A diferença sempre foi um problema de natureza sociocultural e, consequentemente, institucional de ordem relacional. Por muito tempo, a maneira de relacionar-se, de reconhecer e de integrar os alunos com necessidades educativas especiais [3] se restringiu à família e às instituições públicas direcionadas às chamadas pessoas com problemas, que agora a sociedade quer incluir. Porém, para que os fundamentos de uma educação inclusiva sejam compreendidos, é necessário que haja a análise e a reflexão sobre a posição pelas quais as relações entre as pessoas são mantidas, dentro e fora de sala de aula. Nesse quesito, há duas maneiras pelas quais a vida e o trabalho na escola são organizados: pela classe ou pelo gênero, pois o modo pelo qual um ou outro é negado, ou articulado, chama-se exclusão. (MACEDO, 2005, p. 17). A exclusão apoia-se na lógica da classificação que parte da reunião de objetos, de pessoas ou de qualquer outro elemento sob um determinado critério e, sob esse mesmo critério, coloca-os em ordem, pois, uma vez pertencentes à mesma classe, podem ser substituídos uns pelos outros (MACEDO, 2005, p. 19). Pelo poder classificatório que reúne tudo o que faz parte de um determinado critério, exclui-se tudo o que não faz parte (MACEDO, 2005, p. 120). Infelizmente, compreende-se ser esse o princípio que rege a exclusão dos alunos com necessidades especiais da escola, pois não se encaixam na categoria dos privilegiados pela classificação. Por outro lado, a classificação faz parte do processo de ensino-aprendizagem, pois é parte fundamental para o desenvolvimento do conhecimento. Porém, o mau uso político da classificação na educação é o grande causador da exclusão, dos preconceitos e da alienação,“pois o que nega a pertinência, isto é, autoriza a exclusão”(MACEDO, 2005, p. 20). Infelizmente, compreende-se que essa é a política da classe dominante que se encontra fundamenta na ideologia daqueles que têm classe, daqueles que detêm as condições econômicas e merecem, na acepção da palavra, as benesses de frequentar as chamadas boas escolas. Ao contrário da lógica classificatória, que resulta na exclusão, a lógica da inclusão é gregária, parte da relação interna, da compreensão entre as partes de ummesmo conjunto do qual se depreende um sentido. Incluir é relacionar-se interativamente, é organizar o conhecimento ou a forma de pensar na perspectiva do outro. (MACEDO, 2005, p. 20). Compreende-se que, na perspectiva da relação, cada parte de algo compõe um todo, e o todo se caracteriza por todas as partes que o constituem. Nessa lógica de relação, quando há um problema, o problema pertence a todos, e a busca por soluções também. Em uma escola para todos deve haver uma reavaliação constante das relações de convivência, da organização do contexto e de tudo o quanto possa refletir nas atividades do ensino-aprendizagem, porque a inclusão é um processo de compreensão do sentido relacional que é depreendido socioculturalmente através das interações. As relações interativas que são desenvolvidas em um ambiente inclusivo são as mediações necessárias que se estabelecem entre os seus participantes em tudo que se encontre simultaneamente no mesmo espaço de atividade. É nesse sentido, e não em outro qualquer, que a inclusão significa, A classificação pela semelhança traz uma sensação ilusória de inteireza e de segurança que não é permitida pela diferença. 3 O conceito de“necessidades educacionais especiais”passará a incluir, além das crianças portadoras de deficiências, aquelas que estejam experimentando dificuldades temporárias ou permanentes na escola, as que estejam repetindo continuamente os anos escolares, as que sejam forçadas a trabalhar, as que vivem nas ruas, as que moram distantes de quaisquer escolas, as que vivem em condições de extrema pobreza ou que sejam desnutridas, as que sejam vítimas de guerra ou conflitos armados, as que sofrem de abusos contínuos físicos, emocionais e sexuais, ou as que simplesmente estão fora da escola, por qualquer motivo que seja.

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