educaSesc#3
EDUCA SESC 46 2019 abrir-se para o que o outro é e para o que eu sou ou não em relação ao outro. Por isso, a educação supõe, sobretudo, uma mudança em nós, em nosso trabalho, nas estratégias que utilizamos no trabalho, nos objetos na sala de aula, no modo como organizamos o espaço e o tempo na sala de aula. (MACEDO, 2005, p. 22). As relações inclusivas em uma escola para todos se baseiam no princípio da interdependência, que são desenvolvidas pela complementariedade, pela indissociabilidade e pela irredutibilidade. Compreende-se que a interdependência entre todos os participantes se estabeleça em um contexto sociocultural de ensino-aprendizagem de complementariedade. Um contexto colaborativo é algo no qual todos os participantes trabalham para que as lacunas existentes sejam supridas em suas necessidades específicas. Nesse contexto de complementariedade ativa de participação, a interdependência provém de um inter- relacionamento indissociável e irredutível das suas práticas, pois, sem a participação de todo o contexto e de todos os seus participantes, a interdependência não existe. A interdependência é uma forma de relacionamento saudável que desenvolve a autonomia e que empodera os seus participantes. Ao contrário da interdependência, a codependência é perversa, não há autonomia na relação, pois a pessoa que cuida torna-se dependente, refém ou limitado pela pessoa que é cuidada, e a pessoa que é cuidada não evolui, pois, nesse processo, não é responsável por si mesma. (MACEDO, 2005, p. 28). Compreende-se que o grande desafio para uma educação inclusiva para a criação de uma escola para todos está no desenvolvimento consciente de uma relação construtiva. Uma relação construtiva somente pode ser estabelecida através da responsabilidade de uma relação interdependente, pois “Ensinar ou cuidar é “perder ou perde-se” por ter ensinado ou cuidado daquele a quem ensinamos ou de quem cuidamos. É deixá-lo partir ou alterar a posição relacional conosco, pois ele já não precisa mais de nós.”(MACEDO, 2005 p. 27). O EMPODERAMENTO Pela dimensão de qualidade das relações de interdependência, compreende-se que o processo de inclusão esteja diretamente relacionado ao cerne do conceito de empoderamento descrito por Bourdieu (1983). O empoderamento é um processo de que resulta da interação que se estabelece entre um determinado ethos, aqui compreendido como os alunos com necessidades educativas especiais em processo de inclusão, e um locus, aqui compreendido como a escola. Este locus deve ser apropriado para o desenvolvimento de um habitus, de ummodo de viver e agir, capaz de transformar a consciência dos alunos com ou sem necessidades especiais para uma plena participação social. Para que o processo de empoderamento dos alunos com necessidades educativas especiais possa ser desenvolvido, é necessário que haja um ambiente eminentemente inclusivo. A inclusão pressupõe a valorização das diversidades das singularidades humanas, do ser e do fazer mediado por um locus agregador e colaborativo, característico das comunidades de prática. Pelos princípios de uma educação inclusiva, um locus apropriado pressupõe um ambiente no qual e pelo qual o sentido do pertencimento dos alunos encontra-se relacionado às relações simbólicas. Essas relações simbólicas encontram- se relacionadas à satisfação das necessidades educacionais específicas de cada participante para que todos recebam as oportunidades adequadas ao desenvolvimento do habitus. CONSIDERAÇÕES FINAIS A compreensão sobre a natureza das complexidades que caracterizam a inclusão como processo de empoderamento, como um direito humano, exige conscientização. A conscientização exige conhecimento e, principalmente, políticas claras, pois a inclusão pressupõe a exclusão como um discurso de poder. O discurso de poder encontra-se enraizado na sociedade desde os tempos mais remotos como o discurso do dominador sobre o dominado, daquele que pertence sobre aquele que não pertence. Esse é o mesmo discurso que, na era primitiva da humanidade, justificou a lei da sobrevivência. Porém, há que se considerar que é passada a hora de pensar coletivamente em colaboração, na integralidade da sociedade. A noção de integralidade social só é possível através da ideia de um social constituído por inúmeras comunidades de prática que colaborativamente trabalhem para o desempenho das tarefas das necessidades humanas. Nesse sentido, a maior tarefa da humanidade é a preservação da própria espécie, do pleno exercício da cidadania e do planeta. Fora de uma consciência de coletividade da existência humana não há a possibilidade de plenitude, de satisfação, porque a vida se desenvolve pela completude, característica do processo da impermanência da vida. Fora da consciência da inclusão, da inteireza que compõe a vida, a destruição do planeta e da espécie humana, pautada pela competitividade promovida pela ganância desenfreada, é um fato. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL, Decreto n. 7.611, de 17 de novembro de 2011. Dispõe sobre a educação especial, o atendimento educacional especializado e dá outras providências. Lei de Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ Ato2011-2014/2011/ Decreto/D7611.htm>. Acesso em: 27 jun. 2012. BOURDIEU, P. Escritos de Pierre Bourdieu. In: ORTIZ, Renato (Org.). Pierre Bourdieu: Sociologia. São Paulo: Ática, 1983. p. 38-183. MACEDO, L. Ensaios pedagógicos: como construir uma escola para todos? Porto Alegre: Artes Médicas, 2005. KATHY REJANE PESTANA TORMA é Doutora em Letras/Linguística Aplicada.
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