educaSesc#3
49 EDUCA SESC 2019 psicológicas (CANCLINI, 1999). Nessa perspectiva, Santos (2011) destaca que o consumo é o lugar de reorganização das identidades, tendo em vista que a identidade de uma pessoa passa a se constituir também a partir das coisas que ela usa e inscreve sobre seu corpo, as quais funcionam como estruturas significantes para estabelecer a identificação e a diferenciação do indivíduo perante outros grupos que o cercam. Já a partir de Bauman (2005), podemos conjecturar que em lugar de uma identidade, edificada e construída de uma vez por todas, celebramos a permanente construção de processos identitários, que se reinventam permanentemente por meio de uma rede de conexões. Canclini (1999) demonstra que esta concepção é insuficiente para explicar as transformações de nossas concepções de cidadania e consumo. Em verdade, o entendimento desses dois termos se altera em todo o mundo devido às mudanças econômicas e culturais, pelas quais as identidades se organizam num processo de valorização cada vez maior dos símbolos e ícones da indústria cultural, em detrimento de símbolos nacionais. Isso porque muitas questões próprias dos cidadãos vêm sendo cada vez mais equacionadas pelo consumo privado de bens. Essas questões são de suma importância para pensarmos as juventudes contemporâneas e seus processos identitários por meio do consumo, o que coloca em destaque suas relações com as mídias digitais. Décadas atrás ser jovem significava, sobretudo, transgredir normas sociais, rebelar-se diante dos padrões estabelecidos. Integrar e vivenciar a juventude, de ummodo geral, implicava aderir e defender utopias políticas, que se relacionavam a lutas por causas sociais do momento histórico vivido. Hoje ainda observamos jovens comprometidos com essas pautas, mas denota-se uma relevante mudança de ênfase, em que a juventude parece muito mais passiva e adaptada à lógica hegemônica por conta de que sua participação social está inextricavelmente atrelada às práticas de consumo. Nessa perspectiva, Kehl destaca: [...] ser jovem virou slogan, virou, clichê publicitário, virou imperativo categórico, condição para se pertencer a certa elite atualizada e vitoriosa. Ao mesmo tempo, a“juventude”se revelava um poderosíssimo exército de consumidores, livres dos freios morais e religiosos que regulavam a relação de corpo com os prazeres, e desligados de qualquer discurso tradicional que pudesse fornecer critérios quanto ao valor e a consistência, digamos, existencial, de uma enxurrada de mercadoria tornadas, da noite para o dia, essenciais para a nossa felicidade. (KEHL, 2012, p. 45). Os jovens vivem numa sociedade dominada pela mídia, instância socializadora que opera através de imagens elaboradas e disseminadas no contexto da sociedade de consumo. É inegável que nem todos possuem condições econômicas para consumir os produtos focalizados pelas propagandas como forma de pertencimento social, sobretudo num país como o Brasil, marcado por profundas desigualdades. Assim, tornam-se consumidores ao nível do imaginário e nisso as mídias digitais desempenham um papel central. Desse modo, constrói-se a imagem do adolescente consumidor através dos meios de comunicação com um propósito, mostrar uma identificação e a extensão do consumo a todas as classes sociais. Quanto mais tempo nos considerarmos jovens, mais produtivos e potentes nos tornaremos para o pleno funcionamento da sociedade de consumo. Em contrapartida, o fato de grande parte de a coletividade identificar-se com o imperativo da juventude pelo maior período de tempo possível, se constata que o incentivo ao consumo se exacerba. Acredita-se que o ideal de vida da sociedade seja a juventude, mas esse ideal de juventude não significa sua efetiva valorização. Portanto, tratar a juventude como um ideal remete ao debate em torno do nosso tempo, que pode ser definido como uma sociedade de consumo, em que há uma verdadeira obsessão por ser jovem. Sendo assim, compram-se produtos que “evitam” o envelhecimento precoce, vive-se buscando estratégias para evitar a passagem do tempo, abandonando-se ou secundarizando-se pautas sociais, valores e interesses coletivos. Isso posta, conclui-se que, no decorrer do tempo, o imperativo da juventude e seu prolongamento provocaram a mudança de hábitos, costumes e significados compartilhados na vida em sociedade, os quais enfatizam a individualidade acima da coletividade, com o intuito de aderirmos e atendermos a padrões ditados e valorizados ela sociedade de consumo. Nessa direção, as autoras Schwertner e Fischer (2012) relacionam a valorização da juventude com a ênfase atribuída à cultura popular, acessada, sobretudo através dos meios de comunicação a partir de meados do século XX. A partir desse momento intensificam-se, as relações de consumo e de produção, por parte dos jovens na sua interação com as diversas mídias. Quando pensamos sobre as culturas dos jovens contemporâneos, portanto, não podemos desconsiderar suas interações com as mídias, sobretudo as digitais que ocupam cada vez mais seu tempo de lazer e se colocam como estratégias de comunicação, interação e entretenimento. Minha experiência como professora de jovens sinaliza que sua visão de mundo, opiniões, informações sobre fatos e acontecimentos advém, sobretudo, das imagens e conteúdos acessados através das mídias, como a televisão e os sites de redes sociais. De um modo geral, essas mídias em seus diversos formatos raramente proporcionam o aprofundamento das informações ou estimulam o questionamento e o pensamento crítico, haja vista as incontáveis notícias inventadas, as chamadas “Fake News”, que levam alguns estudiosos a Os jovens vivem numa sociedade dominada pela mídia, instância socializadora que opera através de imagens elaboradas e disseminadas no contexto da sociedade de consumo.
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