educaSesc#3

EDUCA SESC 50 2019 conjecturar que adentramos a era da “pós-verdade” (D’Ancona, 2018) em que tudo o que é noticiado e veiculado pelos meios de comunicação passa a ser avaliado como verdadeiro e inquestionável. Nesse sentido, as mídias se colocam como importantes agentes de socialização e formação das gerações atuais e requerem atenção por parte da escola e dos profissionais da educação. Nas palavras de Kellner (2001), Para quem viveu imerso, do nascimento à morte, numa sociedade de mídia e consumo é, pois, importante aprender como entender, interpretar e criticar seus significados e suas mensagens. Numa cultura contemporânea dominada pela mídia, os meios dominantes de informação e entendimento são uma fonte profunda e muitas vezes não percebida de pedagogia cultural: contribuem para nos ensinar como nos comportar e o que pensar e sentir, em que acreditar o que temer e desejar – e o que não. (KELLNER, 2001, p. 10) As mídias apresentam ideias para seus telespectadores, moldando significados, evidenciando fatos narrados a partir de pontos de vista específicos e muitas vezes já interpretados, buscando legitimar os interesses da sociedade de consumo atual. Ao analisarmos programas de televisão, percebemos o foco das emissoras direcionadas para determinados assuntos, é como se existisse uma linha do tempo e que os fatos ocorressem isoladamente no mundo, sem ênfase em seus desdobramentos, sem um desfecho para as temáticas abordadas em suas reportagens, analisam-se fatos descontextualizados, isolados do todo ou em sua articulação com outros acontecimentos, o que pode contribuir para favorecer determinado ponto de vista enquanto se desqualifica ou não se dá visibilidade a outros. Se as mídias clássicas, como a televisão, estiveram implicadas no sentido unidirecional da comunicação e da produção de conteúdos, a disseminação das tecnologias digitais e a democratização do acesso à internet, a partir do fim do século XX e início do século XXI, possibilitaram transformações significativas nas formas de acesso à informação, nos estabelecimentos de relações interpessoais e, por conseguinte, na socialização dos jovens. Essas mídias desafiam as formas tradicionais de ensino, oferecendo novos formatos e modos de aprender, fortalecendo e incentivando a criatividade, proporcionando inovação e intensificando as interações entre internautas imersos emmundos virtuais que potencializam a participação dos jovens e a ressignificação de suas culturas. Para Silva (2009) interatividade é a modalidade que ganha centralidade na cibercultura, a cultura emergente diante da proliferação das mídias digitais. De acordo com o autor, as mídias digitais modificam a lógica comunicacional até então centrada em um polo emissor, abrindo possibilidades aos sujeitos responderem ao sistema de expressão, participarem, dialogarem e, portanto, intervirem sobre o conteúdo da comunicação. Essa mudança representa um grande salto qualitativo em relação ao modo de comunicação de massa que prevaleceu até o final do século XX e que teve a televisão como símbolo máximo. O modo de comunicação interativa ameaça a lógica unívoca da mídia de massa, como superação do modelo prevalecente até então,“da recepção passiva”(SILVA, 2009). A emergência da interatividade como mudança no esquema clássico de comunicação, caracteriza as alterações engendradas pelas mídias digitais. Silva (2009) comenta que na perspectiva da interatividade, o professor deixa de ser um transmissor de saberes para converter-se em formulador de problemas, provocador de interrogações, coordenador de equipes de trabalho, sistematizador de experiências e memória vivia de uma educação que, em vez de prender-se à transmissão, valoriza e possibilita o diálogo e a colaboração. Por certo, mesmo considerando as incontestes mudanças que as mídias digitais promoveram na constituição das juventudes e de seus modos de expressão, ainda observa-se resistência por parte dos profissionais da educação quanto à adoção das mídias digitais na escola e isso acontece por diversos motivos. Alguns profissionais não dispõem de conhecimentos ou de formação para o emprego das tecnologias com fins pedagógicos, o que os leva a desacreditar nas suas potencialidades educacionais. Outros culpabilizam a tecnologia por manterem os jovens dispersos ou até mesmo as consideram como expressões da baixa cultura, como contraponto à cultura erudita acessada pelos livros e materiais impressos. Paralelamente, muitos professores utilizam as mídias digitais de modo criterioso e criativo, promovendo ainda a democratização do acesso a tais artefatos, já que um contingente significativo de jovens estudantes, oriundos das camadas populares, não possui acesso à internet e a computadores em seus lares. Entretanto, independentemente das concepções dos adultos acerca das mídias digitais, o fato é que os jovens as utilizam e para os mais variados fins. Com o objetivo de aprendizado conceitual, para a realização de tarefas escolares, como forma de entretenimento, para comunicação e interação entre pares. Buckingham (2008) destaca que as escolas têm a responsabilidade de avaliar as realidades da vida das crianças e dos jovens fora da escola o que, obviamente, inclui seu envolvimento com a cultura popular e o emprego que fazem da tecnologia no lazer. Portanto, justifica-se a relevância de pesquisas que focalizem as experiências dos jovens estudantes com as mídias digitais, com o intuito de compreendermos suas culturas e práticas de consumo intermediadas pelos artefatos tecnológicos, buscando compreender seus modos de socialização e aprendizagem na cultura digital, a fim de qualificarmos nossas práticas pedagógicas. Apoiadas por esses entendimentos na próxima seção apresentam a abordagem metodológica da pesquisa. A emergência da interatividade comomudança no esquema clássico de comunicação, caracteriza as alterações engendradas pelas mídias digitais.

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