educaSesc#3
A educação muda conforme os tempos. Assim como a ciência, avança em muitas direções e tendências, além de sinalizar alguns fatores e indícios que devemos prestar atenção. O psicólogo clínico e escritor Rossandro Klinkey é um fenômeno da Internet. Em seus livros ou palestras, ele ressalta a importância do estudo de temas como filosofia e ética para a formação de indivíduos mais completos. Nesta entrevista especial para a EducaSesc, ele fala sobre o perfil do novo colaborador nas empresas, relacionamentos das famílias, limites e criatividade das crianças e como agir frente aos comportamentos destrutivos disseminados nas redes sociais. Um conteúdo importante para professores, pais e alunos. O QUE DEFINE A EDUCAÇÃO DOS NOVOS TEMPOS? A educação acompanha o tempo e vai atualizando aquilo que é necessário para estar alinhadas às mudanças da cultura, da sociedade e das tecnologias. A educação avança porque, obviamente, a ciência avança diariamente. Então, o que o professor entrega para o aluno em sala de aula também precisa avançar. Existe algo novo para o qual a educação começou a ficar atenta, especialmente com esta crise que temos visto, relacionada a problemas de ansiedade, depressão e suicídio. Começamos a perceber que a educação também tem o compromisso de desenvolver o indivíduo de forma A IMPORTÂNCIA DAS EMOÇÕES PARA O PSICÓLOGO CLÍNICO E ESCRITOR ROSSANDRO KLINKEY, O VALOR ESSENCIAL DA EDUCAÇÃO, NOS DIAS ATUAIS, É PERMITIR QUE OS JOVENS TENHAM UM DESENVOLVIMENTO EMOCIONAL COMPLETO E QUE VALORIZEM AS RELAÇÕES completa, ou seja, desenvolver as suas habilidades emocionais. Aprender a conhecer, aprender a fazer. Acho que esta é a principal diferença da educação dos nossos avós, que aprenderam tabuada. Hoje, é aprender a ser – desenvolvendo a interioridade –, e aprender a conviver – com a diferença, com a autoridade. Os principais pilares tratam da vida emocional, tanto da interrelação de si para consigo mesmo como na relação do indivíduo para com os demais. Numa sociedade cheia de divisão como o Brasil, a capacidade de diálogo e aprender a conviver com o outro são essenciais. A educação começou a entender, hoje, a importância do desenvolvimento socioemocional. QUAL A SUA OPINIÃO SOBRE O ENSINO DE DISCIPLINAS COMO FILOSOFIA, ÉTICA E AUTOCONHECIMENTO NO AMBIENTE ESCOLAR? É essencial. Temos alunos que são formados em escolas de altíssima qualidade, considerados de alto nível, classe média alta, falam dois ou três idiomas e que já fizeram intercâmbio. Mas sofrem de diferentes distúrbios emocionais. Ou seja, não desenvolveram as suas habilidades emocionais. A filosofia faz a gente discutir por que estamos aqui e qual o nosso papel no mundo. A ideia de discutirmos as emoções também é essencial. A ética. A capacidade de conviver em sociedade. O problema do Brasil é que existem muitas disciplinas nas quais os alunos aprendem muito conteúdo, mas não aprofundam nenhum tema. Aí algumas pessoas querem aproveitar para eliminar disciplinas essenciais como essas. Existe toda uma discussão aqui para ser tratada por pedagogos e especialistas. O SENHOR DEFENDE QUE IMPOR LIMITE AOS FILHOS É UMA FORMA DE AMOR. MAS, AO MESMO TEMPO, EXISTE UMA COBRANÇA E UMA EXPECTATIVA GRANDE PELA PERFORMANCE DOS FILHOS. COMO LIDAR COM ESTA CONTRADIÇÃO? A primeira coisa que a família deve pensar é que os limites são importantes porque vão formando o indivíduo. Por exemplo: o limite ético. Quando eu digo para o meu filho que ele não pode gritar quando está num shopping ou numa igreja, estou ensinando a ética da convivência coletiva. Isso é limite. Mas não é ditadura, nem reprimir a criança de sua criatividade para ela não poder discordar dos pais. Para discordar dos pais deve fazer isso com respeito. Mas quando eu defendo limite não estou defendendo supressão de criatividade e espontaneidade da criança. No entanto, às vezes eu vejo a ansiedade de pais para que uma criança, aos 6 ou 7 anos, já tenha Ph.D. em Harvard. Aí a criança não brinca, não tem espaço para ficar em casa brincando com os amigos ou primos. Ela se preenche de atividades: inglês, tênis, xadrez. Só que o desenvolvimento de uma criança passa por relacionar- se com outras crianças e com adultos. Ela precisa deste espaço e precisa brincar. Ela vai ter a vida inteira para vencer e para estudar. A família precisa colocar limites e exigir resultados educacionais. Mas também precisa deixar espaço para viver a vida. NA ERA DAS CRIANÇAS DE APARTAMENTO, A SUPERPROTEÇÃO É UMA PRÁTICA USUAL. QUAL O VALOR DO ERRO E DA FRUSTRAÇÃO NA PEDAGOGIA E NO ENSINO? O erro e a frustração são essenciais na formatação do indivíduo, da sua personalidade, do desenvolvimento de resiliência. Os pais podem tentar garantir uma diminuição da frustração, mas o mundo não vai fazer a mesma coisa quando o seu filho for para a vida. E devemos criar os filhos para o mundo e não para a nossa redoma emocional. Algumas famílias têm a realidade do condomínio, do espaço de segurança. Mas a grande maioria da população, não. Só que eu não posso usar como justificativa o meu medo da violência para que o meu filho não tenha limites ou que eu tenha que superproteger. Muitos acabam ficando dentro dos apartamentos e usando celulares e tablets. Eu até entendo isso. Mas tudo precisa ser pontual. É preciso também sair, passear. E oferecer companhia para as crianças, interagir e brincar com elas. A presença das pessoas que ama é uma das coisas mais importantes para uma criança.
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