Para vir a ser o que sou
a gente tem medo dos bichos porque eles podem ir pra qualquer lugar Maria Isabel Iorio Diante da impotência: criar asas. A vontade performada por Andressa Cantergiani através da Corva adquire nuances extremas no Brasil de 2021, assolado há meses pela pandemia da covid-19 – que restringiu quase ao nada nossos horizontes de voo, concretos e simbólicos – e sem perspectiva de melhora. Todavia, a atu- al crise sanitária era inimaginável em 2019, quando a artista criou a ação, na qual dezenas de penas são anexadas às suas costas com agulhas de acupuntura. Existiria, então, algo de premonitório nesse gesto poético-político? Algo, talvez, semelhante à atuação dos anjos de WimWenders em Asas do desejo, que, aliás, serviu de inspiração para o trabalho? Sim e não. Dois anos atrás, Andressa transfor- mava-se pássara em uma resposta às crescen- tes ameaças a direitos e liberdades sociais no país, especialmente aos episódios de censura às artes visuais que se avolumam desde 2017. O impacto abismal da covid-19 no Brasil deve-se também à multiplicação dessas violências que, antes da pandemia, já buscavam sufocar espa- ços de criação e de vida. A censura, tal qual o vírus, não se limita a casos isolados, dissemina- -se, criando um contexto de medo, insegurança e desamparo. É nesse sentido que, segundo Ma- ria Cristina Castilho Costa eWalter de Sousa Ju- nior, “todos admitem que a censura existe, mas, como uma bala perdida, não sabemos bem de onde ela vem e quem deveria atingir” (COSTA; JUNIOR, 2018, p. 29). Suely Rolnik aduz metáfo- ra semelhante sobre a produção artística sob a repressão em contextos ditatoriais: Mais específico ainda é o fato de que estas ten- sões se agudizam no corpo do artista, já que a ditadura incide em seu próprio fazer, levando-o a viver o autoritarismo na medula de sua ativi- dade criadora. Se este se manifesta mais obvia- mente na censura aos produtos do processo de criação, bem mais sutil e nefasto é seu impal- pável efeito de inibição da própria emergência deste processo – ameaça que paira no ar pelo trauma inexorável da experiência do terror (ROLNIK,2009, p. 156). Se o corpo é o alvo primordial do autoritarismo, Andressa o elege como palco de cura. Cabe, as- sim, enxergar as penas negras que brotam, es- correndo pelas costas da artista, como resíduo desses traumas, aqui convertido em promessa efêmera de vôo. E é fundamental que não se ignore a efemeridade: as asas são, afinal, uma conquista instável. Depois de horas construin- do-se pássara, agulha por agulha, Andressa só permanece Corva por alguns minutos. O que duram são os registros/resquícios da ação – como as fotografias presentes neste catálogo –, desdobramentos da memória do gesto no corpo. Dizer apenas que Corva tematiza a liber- dade não é, portanto, suficiente. Corva alude à constante necessidade de criar caminhos, não raro exigentes, muitas vezes dolorosos, para a liberdade; ao trabalho incansável de ser livre. _
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