Para vir a ser o que sou
O corpo como ritual apresenta-se de muitas formas: enquanto realidade limita-se aos olhos do sonho; enquanto criatura fantástica cede aos princípios da bestialidade ou do encanto. O corpo ritualístico é também simbólico, mais imagem do que palavra e, naturalmente, mais expressivo, violento e forte. A Corva de Andressa Cantergiani perpassa os limites da irrealidade sem abandonar os limi- tes do corpo. Seria o pássaro a presença que o assume ou o contrário? A forma que toma é do- lorosa e fantástica. É como a esperança, a coisa com penas de Emily Dickinson. Uma criatura ideal feita da mesma matéria que a memória, o tempo ou o espírito. Essa criatura, habitante momentânea do corpo ritualístico, possui seus próprios significados ocultos. Enquanto fera, machuca o corpo para existir e existe apenas por um instante, como uma chama que se consome rapidamente. Mas, enquanto ser encantado, cobra uma compreen- são mais demorada, que se estende no signifi- cado de suas penas: a liberdade, em si. E como no poema de Emily Dickinson, “can- ta a música sem palavras”. Não são necessá- rias, portanto, justificativas para sua existên- cia: existe e só, como uma ideia. E tão sublime quanto um sonho do qual se é possível lembrar apenas nos primeiros momentos depois do sono, deixa de existir quase instantaneamente quando o peso da realidade ocupa o seu espaço. Assume outra forma, abandonando o corpo-ri- tual que lhe deu carne e sangue, torna-se ape- nas sentido. A imagem da liberdade permane- ce, apesar disso, absorta em nuvens de utopia. _
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