Para vir a ser o que sou

Assisto a transformação do corpo em Corva. O ano é 2019. Observo a conduta minuciosa ne- cessária para o procedimento. Tempos, mate- riais. Agulhas, penas. Espera, exaustão. – Quanto tempo já passou, falta muito? Tenho dúvidas se esse longo e doloroso proces- so é destinado ao voo ou se é resultado de uma queda. Seja como for, há um espaço protegi- do para isso que está acontecendo. A ação d’A Corva é, simultaneamente, de contenção e de concentração de forças, de um uso muito cons- ciente e elaborado da energia. A Corva nos dá as costas, mas não como um ato de desdém. Ela se prepara e se protege como quem sabe que o voo seguinte exigirá muito mais coragem, fazendo- -se necessária uma troca epidérmica. Braços que viram asas. Pele que vira plumagem. – Mas quem se transforma em quem? A Corva está sob o signo do voo, no entanto, o es- paço de ambiguidade oferecido por esse ente em mutação, entre uma natureza e outra, permite ao ser que voa a descoberta da importância do cair. Essa performance é também uma espécie de en- saio mútuo. Ensaiar um voo, uma queda. Voar emulando uma queda, cair simulando um voo. Repetindo, repetindo, até que se faça diferente. – Quantas vezes isso ainda vai acontecer? A Corva voa baixo. Para escapar do radar, para escapar da censura, para reconhecer melhor uma topografia. Ver sem ser vista, confundir. Voo noturno. A Corva também pode ser um dis- farce. Pesquiso na enciclopédia online e lá está escrito que penas são estruturas tegumentárias complexas, e que tegumento – do latim integu- mentum (cobertura) – é a designação dada, em biologia, à cobertura natural de um organismo ou de um órgão. – Você me dá cobertura? _

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