Para vir a ser o que sou

Na tradição sufi, vertente do islamismo, Mubashshirat diz respeito às visões que se manifestam em forma de sonhos: ensinamen- tos xamânicos que, caso bem compreendidos, poderiam trazer revelações. Em termos con- cretos, o que uma revelação seria capaz de des- velar em um corpo? Qual o véu de que são re- vestidos os sonhos? Rasgando esse tecido em uma epifania de cores, texturas e gestos que surgem das imagens, Ali se associa a estas questões em uma espécie de magia semióti- ca capaz de engendrar imaginários através do olhar. O mesmo que, voltado para nós a partir dos olhos transfigurados do artista, parece ser sacralizado, profanado e colocado ao contrário, revelando também o profundo abismo que há na inversão da perspectiva. Neste avesso, só se vêem vastos furos côncavos, poços escuros de onde brotam lampejos de luz, como quando no cerrar das pálpebras surgem resquícios de ima- gens que persistem dançando em meio à treva. O fechar dos olhos se torna então uma abertura para as cores, luzes, memórias e iluminações que vêm do âmago, amálgama espectral de imagens. Cada visão, presságio de um caminho infinito e vertiginoso: a existência como peregrinação corporificada. Mubashshirat’s da Insônia são so- nhos ao contrário, onde a visão oracular do artis- ta aponta um falso e nostálgico futuro, um ritual iniciático que se conecta às imagens latentes no corpo e no tempo, transmutando estranhamen- tos e significados em um esforço prometeico de desviar imaginários e produzir diferenças. As camadas sobrepostas de algodão, plástico, metal e pele se entrelaçam em uma urdidura de onde se pode costurar sempre um novo devir, para si e para o outro, em uma troca alquímica que se repete sem nunca permanecer igual. _

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