Para vir a ser o que sou
Vindos do futuro, personagens com caracterís- ticas plásticas latentes são fotografados e posi- cionados em fundos de cores chapadas. Eles são “discretos e silenciosos” e “moram bem longe dos homens”, como sugere o poeta. Carregam consigo objetos preciosos, tais como os óculos de escafandristas imaginários. As relíquias tomam o lugar dos olhos, fazendo as vezes de microscó- pios e telescópios. Nas orelhas, levam fones de ouvido que os conectam com os sons de outros tempos, corridos e vindouros. Luvas felpudas substituemas mãos, fabricando assimum corpo capaz de agarrar-se fortemente às coisas. Isto é algo de bastante valia para os personagens, uma vez que eles conferem grande importância aos objetos e às relações que propiciam. O ser azulado decide posar para foto com um ca- pacete em mãos. Ele relatou, certa vez, ser esse artefato um “para-raios” contra as “línguas atô- micas”, que dizem ser bastante corriqueiras em seu universo. As tonalidades escolhidas para os fundos de suas fotos não são ao acaso, uma vez que são também aquelas de seus interiores. Sim, os seres não são apenas coloridos por fora, mas também por dentro. Infelizmente, os olhos do presente não são capazes de ver tais colora- ções e eles, muito generosamente, mostram-nas a nós por meio dos retratos. Retratar a si ou dei- xar-se retratar tem pouca importância em seu mundo. No entanto, por serem verdadeiramente comprometidos em estabelecer conversações com esse tempo/espaço, o fazem de bom grado. São amorosos, extremamente empáticos e radi- calmente dispostos à escuta. Essa é a magia que vieram compartilhar. As histórias narradas surgemdiante do trabalho Mubashshirat´s da Insônia (2018), de Ali do Espí- rito Santo. Imagino que os seres construídos pelo artista se originam de uma mitologia afastada da ideia de metamorfose após “um sono intran- quilo”, tão frequentemente evocada. As criaturas são fruto da privação de sono, do desespero que não permite descansar mente|corpo. Surgem da letargia instaurada pela insônia e foram conce- bidas há algum tempo, atualizando-se nesses dias de morte. E, com a permanente ausência do sono, nos fazem lembrar que os futuros (e os pre- sentes) são agonísticos. _
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