Para vir a ser o que sou

O movimento das ruas é subitamente paralisa- do. O corpo se vê inerte, solitário, temeroso. An- tigos estímulos são silenciados. Não há mais o encontro com o outro. É a interdição do toque. Mergulha-se em um estado de repetição – mes- mas imagens, mesmos sons, a mesma fonte de luz. O corpo sôfrego passa, então, a tentar se im- pregnar de memórias – é o que resta. A cidade estática pela janela. O outro está distante. A monotonia da paisagem provoca uma neces- sidade de ocupação. Fixar memórias, cheiros, ruídos e texturas de pele. Apega-se ao passado, em um processo de acumulação que nos reme- te a um futuro aterrador: excesso de máscaras, capas, tecidos sintéticos, e instrumentos que buscam contato e proteção. Nesse caleidoscó- pio de apropriações, Ali do Espírito Santo faz do seu próprio corpo a cidade: com sua poluição visual, sua distopia, suas ruas úmidas e seus retalhos de muros. Há fumaça colorida em suas imagens. Ao tanto querer, a matéria esquece sua pele primitiva, e veste-se de camadas e mais ca- madas artificiais de memória. Na ausência de tocar o outro, as mãos tornam-se mutantes, os dedos agora são de um plástico que antes não tinha qualquer valor. O corpo-cidade de Ali do Espírito Santo traz ur- gência e angústia. Ele devora os elementos de outro tempo, na busca de ser um corpo que nun- ca mais será. É um palimpsesto urbano e sensí- vel. O corpo soterrado, cego por memórias. Há em suas fotografias o desespero – mas brota desse caos o desejo, em imagens que seduzem. E faz quem as observa querer tocar: eu passaria noites tateando as peles sintéticas e arranhando a tessitura de suas luvas. As cores são intensas, quase ofuscam o olhar. É um monocromático pop que tenta uniformizar texturas. Mas o olhar atento revela as individu- alidades dessas camadas acumuladas, e desper- tam a vontade de reviver com elas os momentos em que tocaram outros corpos e estavam inseri- das em outras paisagens. A saturação das cores as une, como uma nova cidade, recém-formada. Mas tem ali pegadas na tinta pouco antes colo- cada, que impede que a tentativa de homogenei- zar os espíritos seja efetivada. Há uma mecanização tecnológica nesse ser. Há espanto ao encontrá-lo, em um movimen- to dicotômico que faz querer rasgar para sentir a pele, evitar o sufocamento, e fazê-lo respirar e ver o ar de outrora. Também, vai lentamente dando coceira nos dedos com a ânsia de tocar esse novo corpo, descobri-lo, pois talvez ele seja o corpo que seremos a partir de agora. Ao nos debruçarmos sobre Mubashshirat’s da Insônia encontramos alento e agonia. Uma be- leza visual que inquieta e desestabiliza. A ci- dade segue estática. Mas na obra do artista a cidade pode ser só sua – não importa a quem pertenceu e em qual tempo. É um corpo sem órgãos, contemporâneo pulsando vivo. Em um primeiro momento, tudo parou ali; mas tocar esse corpo me traz a cidade de volta e vivemos juntos um mergulho de saudade e desejo. _

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