Para vir a ser o que sou
Uma obra que confronta padrões e traduz a in- quietação da Julha: performer, como ela mesma se descreve: “feminista, lésbica e agressiva, ar- tista visual, DJ e produtora de eventos”. Julha usa como ferramenta o próprio corpo para combater a objetificação. Em suas performan- ces, esta espécie de autorretrato é um manifes- to. Sua identidade fluida combate o binário, em seu sentido mais amplo. Como é recorrente em seu trabalho, em Postura, une ficção e realidade, concebendo um personagem real e, ao mesmo tempo, fantasioso. Ou real em suas fantasias. Ou onírico em sua realidade. Incorpora elementos contraditórios de uma identidade, que se cons- trói por fragmentos de imagens, símbolos e ati- tudes. Neste percurso gestual, o insólito, a estra- nheza e a presença de elementos simbólicos são parte fundamental do contexto poético da obra, que transita na intersecção da estética queer, do pop, de um “slow” new way vogue, da estética do camp, em sua impertinência e exageros, do surrealismo, e de um introspectivo butô. Uma estética da experimentação, descompromissa- da, e de sobreposições dissonantes. Levou-me à multiplicidade de personagens e autorretratos de Claude Cahun. Se Cahun mina- va os conceitos tradicionais de papéis de gênero estáticos, Julha os mescla em uma espécie de gênero variável ou mutante, de forma contun- dente e incontestável. Aqui, neste agora, o autorretrato de Julha é uma sequência de frames de seu corpo emmovimen- to, vivo, pulsante, atento, combativo e intercam- biante. Exercita a divinização daquele corpo e de suas almas, com todos os seus femininos e masculinos; de suas vulnerabilidades e sortes, fragilidades e fortalezas, em meio a uma alqui- mia de contorcionismos, poses, olhares, alego- rias e intensas cores em “paletas-RGB”. Trans- mutando sonhos e desejos na liberdade de suas múltiplas identidades. Em seus asanas, sai de suas estaticidades e con- formações, em busca de todos os seus EUs, con- quistando o seu lugar na metrópole que atropela e que invisibiliza o diferente e o raro. Leva-nos a uma reflexão sobre os aspectos so- ciais, culturais e estéticos de um corpo queer, sua cultura drag, e a estreita correlação entre suas expressões psíquicas e corporais, inserido e excluído na ilusão de ummundo binário. “Aristocrata da imaginação, o aristocrata do possível, elegante na sarjeta” [Denilson Lopes] Julha está ali, imersa e firme em seus movi- mentos: Aleatórios ou milimetrados? Efêmeros ou perenes? Silenciosos ou estridentes? Prota- gonistas ou invisíveis? É Presença ou Vazio? Através do seu Ajna (a sua “máquina ocular”) registra os movimentos à sua volta, materiali- za consciente e subconsciente em dualidades. É o fenótipo e o genótipo dos seus masculinos e seus femininos, explicitando que o seu cor- po está intrinsecamente ligado à sua alma e as suas emoções. Transita entre gêneros, mas aci- ma de tudo entre desejos. A pose, a alma, o olhar, o corpo questionam, con- frontam, provocam, devoram. O corpo, [mascu- lino-feminino, feminino-masculino] neutro, variável, mutante (pouco importa), misto de incerteza, autoconfiança, memória e sonho se faz movimento, imagem, música, dança, ficção e realidade. _
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