Para vir a ser o que sou

A performance Postura, de Julha Franz, mos- tra a artista, vestida num figurino que remete à performance drag, saindo de um restaurante e andando pelas ruas de uma cidade. Ela cons- truiu uma criatura que, com quatro pernas, rasteja por esse lugar em movimento. A rua, os carros, as pessoas e as luzes noturnas são quase como um segundo personagem que contrapõe e interage em plano de fundo com essa criatura roxa fantástica. Dessa mistura do urbano com o personagem surreal, ela constrói um universo onírico. A personagem se movimenta quase que raste- jando pelas ruas desse cenário urbano e com quatro pernas, ela vai descobrindo a noite. Esse movimento se assemelha à cena de A concha e o clérigo (Germaine Dulac, 1928) na qual um pastor sai de seu aposento na igreja atrás da concha que lhe foi roubada e rasteja pelas ruas como um animal que escapa de uma caverna. O pastor sai pelas ruas desesperado atrás de seu objeto de desejo, enquanto a personagem de Julha Franz explora a cidade, ocupando os espaços que ela proporciona, seja a porta de um restaurante ou o fio da calçada. Esse contexto, no qual a performance se passa, ainda remete a outra produção cinematográfi- ca: Holy Motors (Leos Carax, 2012). No filme, o personagem, interpretado pelo ator francês De- nis Lavant, se desdobra em diversas criaturas que interagem com o meio urbano, cada uma de sua forma, e entre uma performance e outra volta sempre ao seu carro, que anda solitário pelas ruas da cidade. Ali as ruas e o trânsito se tornam, assim como na obra da Julha, o con- texto e o pano de fundo para essas criaturas nascerem. E se analisarmos as aproximações, é a personagem da Julha quem acaba também por reivindicar o seu lugar em meio à cidade, impondo seu elemento fantástico a uma reali- dade urbana. Essa interação que surge, mostrando de um lado o urbano, o real, e de outro o surreal, o imaginá- rio, é o que o cineasta chileno Raul Ruíz utiliza em Cofralandes (2002) para criar também uma realidade onírica. Ruíz documenta seu retorno ao Chile, seu país natal do qual foi exilado, e, no meio disso, aplica elementos oníricos. Os elementos surreais são inseridos em um con- texto documental, e esse contraponto eviden- cia questões do país que o diretor quer retratar. Acredito que em Postura, a artista Julha Franz, quando faz esse mesmo jogo de contraposição, nos apresenta, a partir do olhar dessa criatura, aspectos da cidade em que ela se encontra. A obra Postura, portanto, brinca com os limi- tes entre o fantástico e o real. E apesar desse contraste evidenciado ser marcante, a perso- nagem – por mais surreal que seja – acaba nos mostrando que faz parte desse cenário. Com elementos que fazem referência à performan- ce drag, mostra que o urbano é seu lugar e é onde se sente confortável. Com um terceiro olho, ela é aberta e atenta ao que passa ao seu redor, mas não abre mão da sua individualida- de fantástica. _

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