Para vir a ser o que sou
Seríamos todos seres em metamorfose ou es- boço de uma construção urbano-social linear restritiva? Há muito somos atravessados por novas formas de viver, estar e se expressar. Deparamos-nos com o desconforto e o ruído do formato que não se sustenta mais e vislum- bramos ressonância e eco como pauta de uma nova estrutura de acolhimento e respeito. “Postura”, de Julha Franz, nos traz o belo, o belo como um encontro entre o ruído e a potência da escolha, a inquietação e o desconforto da expe- riência pela busca de respostas à condição fe- minina que emerge das ruas, dos discursos de ódio e dos rótulos ou caixas, essas caracterís- ticas de um estrangulamento social patriarcal. O espaço de performance de Julha e sua arte é a experiência exposta, o processo aberto, o ques- tionamento sobre o lugar do feminino no corpo, na cidade, na abertura de um diálogo que não pede licença, que é. Morfológica, drag, queer, whatever... a criatura, o símbolo. A pesquisa da identidade “Una”, livre, uma artista de seu tempo, do nosso tempo com uma produção artística em constante investiga- ção acerca da condição feminina no mundo. Este trabalho testemunha a potência subversi- va que Julha confere ao processo em conden- sação de sentidos com um desfecho tão belo quanto agressivo. Ao mover-se como uma aranha, estaria a artis- ta estabelecendo umametáfora? Nossa postura, enquanto mulheres em nossas múltiplas fun- ções, papéis e legendas, reconfigura estruturas de poder, tece novos saberes sobre nós mesmas ao gerar novos possíveis percursos. Aranha, uma criatura sem versão masculina. A linguagem escrita assim como nossa cultura e base educacional pode restringir ou expandir, criar pontos de aderência ou fissuras irrepará- veis: lembrar que a língua, por mais poética que possa ser, tem também uma dimensão política de criar, fixar e perpetuar relações de poder e de violência, pois cada palavra que usamos define o lugar de uma identidade. No fundo, através das suas terminologias, a língua nos informa constantemente de quem é normal e de quem é que pode representar a verdadeira condição humana. (Grada Kilomba, Memórias da plantação) “Postura” resiste a uma única interpretação e mantém sua temática aberta em constante ressignificação, autoanálise e ressonância, um trabalho que escancara a necessidade do ques- tionamento e crescimento pessoal e social. _
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