Para vir a ser o que sou
Se, na língua portuguesa, a palavra provisório, é relativa a temporário ou, então, o que não tem caráter permanente, proponho, assim como na série de fotoperformances do artista André Venzon, uma inversão. Retomo aqui sua deri- vação latina provissus – particípio do passado de prover. Ou seja, o que provém. Em outras pa- lavras, o que nos lança o olhar. André Venzon, nesse sentido, apresenta um corpo interditado que evoca o bloqueio de uma presença não assi- milada e refaz a pergunta deleuziana com base spinozista de o que pode um corpo [-tapume]? Parto, dessa forma, do tapume como méto- do do olhar, uma vez que aprendemos a ver e, para além, a deixar de ver. Como exemplos, deixamos de olhar – ainda que forçosamente – o prédio cercado pelo tapume cuja calçada passávamos em frente; deixamos de ver a casa em ruínas que instiga a imaginação de alguma criança, porque também estava cercada pelo tapume. Ainda que não coberto pela concretu- de do tapume, deixamos de olhar os moradores de rua, o outro, o diferente. O não-olhar não é ingenuamente um ato passivo, mas se configu- ra como uma ação (ou seria uma opção?) asser- tiva e construtiva do sujeito. O tapume veda ou obstrui aquilo que pode ser uma obra, um pré- dio, uma ameaça cujas condições sociais (tanto em termos de segurança quanto estéticos) não se encontram aprazíveis ou habitáveis. Como um dos signos da construção civil, o tapume esconde aquilo que ainda não está acabado, que carece de reforma ou que se desmancha. Essa estrutura rígida, impenetrável, ao menos para alguns, que se instaura no ambiente urbano a fim de desviar o olhar, também o provoca. Pro- voca desejo pela falta, pela negação. Ora, se o tapume carrega em si o conjunto de ca- racterísticas significativas supracitadas, o cor- po, na obra de André Venzon, também o faz e ainda de modo mais enigmático. Ele se camufla e se confunde com o tapume ao fundo. Envolto pela padronagem do tapume, o corpo é tomado pelo entorpecimento e certa apatia por sua pró- pria posição. Há certa imobilidade do corpo en- faixado pelas tiras simuladas na cor do tapume e, arrisco a dizer, também imobiliza o olhar do espectador, agora ainda mais desejoso, porque há um corpo ali. Torpor e corpo. Retomando a ideia de construção na qual a estrutura de ma- deira a envolve, o corpo se torna canteiro de obra. A partir disso pergunto-me em quais condições se encontra o corpo que também é tapume? Que corpo é esse que nos olha e projeta o lampejo de uma imagem que sobrevive? Atrevo-me metafo- ricamente a dizer que esse corpo/imagem é um corpo interditado, invisibilizado, trans, modifi- cado, periférico, a se esconder, entorpecido por umsistema que o aprisiona, representativamen- te tratado aqui como tapume. O corpo registra- do pela lente do artista é um corpo em devir, em construção à procura de um olhar, de poder se ver no outro pelo olhar sem classificação, biná- rio ou opressor, sobretudo um corpo a se libertar. Traçarei outra proposição narrativa das duas imagens para encerrar essa breve reflexão. Se, em uma, na primeira, o torpor (a paralisação) toma o corpo, na outra, na segunda, o corpo se encontra em processo de desvencilhamento, como envolto por um casulo dentro do qual o corpo se prepara para rompê-lo. Ícaro na flores- ta propõe um movimento de tensão à partir da mitologia grega, cujas asas de Ícaro derretemao sol escaldante, na tentativa frustrada de fuga. Ícaro dos trópicos, ao contrário do personagem fantasmagórico eurocêntrico, rompe com o ca- sulo e se metamorfoseia com asas de desejo por liberdade. _
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