Para vir a ser o que sou
A superfície e a visão Há plantas que transformam a forma de suas folhas para se parecerem com as plantas ao seu redor. Exercem a mimese como se pudes- sem ver, percebem o mundo exterior através de sua superfície. Talvez suas células funcionem como lentes espectrais que possibilitam algum tipo de visão do mundo que as cerca. Essas plantas expandem a noção de visão: a capaci- dade de ver com o próprio corpo, de transfor- mar-se de acordo com o contato com outras superfícies ou seres. Seria a mimese uma es- tratégia de aproximação? A proximidade leva à mutação da forma, como se fosse uma prática de contágio. Corpos são transformados com a aproximação a outros corpos. As plantas que mimetizam outras plan- tas (ou elementos dos arredores) são um exem- plo radical de seres que se transformam ao en- contrar outros seres ou lugares. Seria possível considerar o mimetismo como uma intenção de comunicação? Se o mimetismo for entendi- do como uma espécie de camuflagem, o intuito de assemelhar-se ao outro (ou ao ambiente) re- velaria um desejo de desaparecimento? O corpo e a cidade Habitar o corpo como um modo de conter a si mesmo no mundo – e de conter o mundo em si. Sem o sentido da visão, distanciar-se da aparên- cia das coisas e, assim, transformar-se nas pró- prias coisas: ser espelho, parecer-se ao mundo. O corpo é todo superfície, a pele mimetiza o am- biente. Estar-no-mundo sendo o próprio mun- do. A dimensão erótica revela-se para além da visão, um corpo vê. Continente sensível, a pele (o maior órgão do corpo humano) é afetada por superfícies que cercam o corpo. Em uma espé- cie de contaminação entre sujeito e lugar, a ci- dade forma e altera o indivíduo: a metamorfose do corpo sensível. A dimensão íntima do erotismo volta-se para a relação com a cidade. A intimidade atraves- sada para o lado de fora: na rua, a pele imita o muro. A pele que o corpo habita existe como uma exterioridade plena. Através da pele, o cor- po encontra o mundo. Corpo-tapume O corpo é também um instrumento para medir o espaço e o tempo. Medir significa individuali- zar o espaço: sabe-se a dimensão de ummuro à medida que se observa um corpo diante dele. O corpo estabelece a medida das coisas. O corpo todo coberto é um corpo todo sensível; sem olhos, vê a cidade transformar sua pele. O tapume cor-de-rosa parece tingir o corpo- -superfície. A cidade altera o corpo-mimético, enquanto ela é transformada pela presença deste corpo. Na série intitulada “Corpo-tapume” de André Venzon, o registro da performance marca um acontecimento efêmero que só conhecemos através da imagem fotográfica. Na superfície da fotografia, os dois corpos (o corpo performá- tico e o corpo da cidade) são transformados em um corpo único, fundidos na dimensão da re- presentação. Talvez, assim, se realize o maior gesto do mimetismo, ao transformar a matéria das coisas do mundo, do espaço e do tempo em imagem fotográfica. _
RkJQdWJsaXNoZXIy NjI4Mzk=