Para vir a ser o que sou

mais negativas sensações do psiquismo huma- no. De forma geral, para o senso comum, os tons rosados remetem a aconchego, amor romântico, e, claro, em uma perspectiva binária de gênero, ao feminino; por simbolizar uma suposta fragi- lidade e delicadeza feminina, em conformidade com a ótica masculinista. Uma rápida olhadela em produções publicitárias confirma a fórmula. Não menos usual, a cor rosa também é empre- gada para representar a homossexualidade mas- culina, em zombaria àqueles que não atingem o esperado grau performativo de masculinidade. Desde o ano de 2005, quando realiza a série fo- tográfica Cidade sem face, conjuntamente com o artista Igor Sperotto (Porto Alegre, RS, 1969), Ven- zon tem pesquisado e experimentado, em suas criações artísticas, a cor rosa, no entanto, partin- do de outro ponto de vista. Nesta série, habitan- tes da cidade de Porto Alegre eram fotografados coma cabeça coberta por uma caixa fúcsia sobre a cabeça; e, de modo análogo ao que acontece em obras da construção civil, eram isolados de seus traços identitários, invisibilizados e confundidos com elementos da urbe. De saída, o rosa inves- tiu sobre aqueles que recobriu uma identidade temporária, do mesmo modo que uma máscara ao esconder a identidade de seu portador, confe- re-lhe outra. A ambiguidade da cor, utilizada como dispositivo de mascaramento de dada situação é o ponto vi- tal das proposições artísticas de Venzon, que nos chama atenção para a nossa relação com a ci- dade. Para estes sutis rastros de transformações urbanas no signo-tapume que, paradoxalmente, tem um colorido pleno de beleza e rico em signi- ficados e, portanto, visualmente atraente. As relações, interferências, fusões, ruídos que se dão no encontro do corpo humano com o corpo da cidade, surgem de modo mais radical em re- lação aos trabalhos iniciais, emTorpor e Ícaro na Floresta. Em ambas, o corpo do artista e o cor- po de seu irmão, respectivamente, estão inteira- mente revestidos/lacrados com o rosa tapume que escamoteia as obras nas cidades. A disso- lução das identidades individuais e a relação fe- nomenológica com o espaço urbano são, assim, acentuadas. Aqui há o que, nas ciências biológi- cas, define-se como camuflagem: estratégia de defesa adotada por seres vivos para escapar de eventuais predadores, nas quais eles absorvem características do ambiente de modo a serem in- visibilizados. A imitação da coloração, formato ou textura, como mecanismo de sobrevivência permitiria tanto a defesa quanto um decisivo in- cremento no surpreendente ataque que os preda- dores podem impingir às presas. Em outro sentido, são instigantes as chaves conceituais e de interpretação sugeridas pelos títulos. Torpor, por referir-se ao estado alterado da consciência relacionado à preguiça, moleza ou indolência, pode nos conduzir às relações apáticas e passivas que nós, como cidadãos, desenvolvemos com a cidade: revelando nos- so baixo engajamento na preservação física de seu patrimônio, memória e história. Em Ícaro na Floresta, o irmão do artista é o modelo e seu nome, invariavelmente, evoca a figura de Ícaro, da mitologia grega, aquele prototípico persona- gem do sonhador, que culmina tragicamente morto ao tentar realizar um sonho impossível. O elemento urbano dá lugar à natural ambiên- cia da floresta: uma reminiscência ao que exis- tia no planeta antecedendo os desbravadores e, não raras vezes, devastadores, processos de civilização e urbanização. Há subjacente uma dúbia alusão à tarefa social do artista em um país com tantas desigualdades sociais e in- compreensão crônica do valor propositivo da arte e da cultura. Como Ícaro, cabe ao artista empenhar-se na construção apurada de suas asas de cera, porque, talvez, mais importante que um seguro ponto de chegada, seja a ousadia da ação, a beleza do voo. _

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