Para vir a ser o que sou

Em várias mitologias e cosmogonias, o corpo é moldado para existir conforme a intenção da força que comanda os desígnios do universo. Longe do divino e do fantástico, a noção que se tem do corpo resulta de uma construção cul- tural e social. Nesse engessamento de possi- bilidades, a arte rompe. A exposição Para vir a ser o que sou, que tem a curadoria de Nicolas Beidacki, é uma oportunidade de se tangenciar algumas dessas rupturas. Não é de agora que o corpo deixa de ser objeto para se tornar plataforma, suporte e linguagem, que deixa de ser representado para ser apre- sentado. Pelo menos desde a segunda metade do século passado o corpo também está na cen- tralidade da obra como irradiador dos sentidos, da polissemia, do impulso. Ao contrário do que se supõe regra, cada um pode arbitrar o sentido de si revelado na ma- téria viva que compõe a todos. E é justamente neste deslocamento de significado, ou seja, de dar ao corpo um papel singular, uma perfor- mance inusitada, que reside a coesão e o atri- buto dos trabalhos reunidos por Nicolas. As obras de Ali do Espírito Santo, André Ven- zon, Andressa Cantergiani e Julha Franz proje- tam o corpo transformado e recriado no espaço social. Mimetizados ou não, eles aparecem em quatro obras que materializam – ou sugerem – o sentido que cada artista tem de si como pos- sibilidade expressiva, como construtor de sen- tidos. Em voga, o estranhamento do corpo que destoa do que lhe é pré-determinado em uma sociedade que tenta normatizar tudo. Os corpos aqui vistos se acentuam ou desta- cam em contraste com o ambiente, na perfor- mance inusitada, na caricaturização da vida banal ou ao cumprir função que, ao princípio da vida, seria de outros corpos, de outras es- pécies. E nessa composição que emana da di- ferença e da ruptura, as possibilidades são ex- postas para o outro, para quem vê. Os corpos aparecem individualizados, sem pares, sem grupos, o que não deixa de ecoar um mundo cindido pela brutalidade e pelo isolamento como estratégia de sobrevivência. Quando o corpo deixa de ser o que é para se tor- nar suporte da arte? Ou ele nunca perde a sua condição inata e, por isso mesmo, ampliado em sentidos, se integra à possibilidade artísti- ca, vira arte? A multiplicidade expressa nesses trabalhos dão caminhos para enfrentar e com- preender um tanto do mundo contemporâneo. O corpo existe em si mesmo, no que é, mas tam- bém no que se quer que ele seja. Se a vida é ver- tigem, o corpo acompanha o frêmito da exis- tência. E nesse processo, nesse deslocamento de sentidos e espaços, a humanidade de cada um se amplia ou renasce porque, no limite, a matéria expande o que julgamos ser a vida. Se o ato, a performance, se a existência garan- tida pelo corpo desaparece no instante seguinte ao acontecimento, a fotografia ou o vídeo dão permanência ao efêmero. E é nesse engendra- mento de oportunidades que as obras desta exposição, articuladas entre si, formam um in- ventário contemporâneo – ainda que breve – do corpo na arte, como arte, sendo arte. _

RkJQdWJsaXNoZXIy NjI4Mzk=