Para vir a ser o que sou

Com um mergulho nas experiências do corpo e na profusão das visualidades oníricas que marcam a modernidade e a pós-modernidade, um olhar sobre a potência e a permanência dos símbolos nos evoca o desejo pela aproximação com o mundo do surreal e misterioso, através das metáforas que emergem de suas imagens fascinantes. São essas imagens, produzidas por quatro artistas contemporâneos, que nos indagam sobre o profundo sentido de realidade num mundo que avança constantemente con- tra a sua própria existência. O Brasil, inundado numa crise que se espalha por diversos setores, já parece, com igual se- riedade e interesse, avançar também contra o encantamento da vida e produzir sensações de uma catástrofe sem fim. Nisso, conside- rando todos os fatores, há quem compreenda e absorva o pessimismo como sendo a nossa única perspectiva de leitura para uma estrutu- ra social que adentra no capitalismo violento, na falência das possibilidades existenciais, na agressão completa da vida e há quem se colo- que, sem renunciar a aparência degradante do caos, numa postura combativa frente ao inten- so desejo de destruição que vem instaurando o sentimento permanente da morte de todas as coisas. Vivemos, portanto, numa contraposi- ção, num conflito de perspectivas e no enfren- tamento diário das concepções de realidade. A morte simbólica do corpo, o ceticismo, a ve- racidade cruel e o desencanto promovem os questionamentos sobre as prerrogativas que nos fazem resistir ou adoecer. A insônia, a sobrecarga do mundo do trabalho, as cidades intensamente verticalizadas, a urbanização agressiva e o desgaste do que é físico marcam uma geração que enfrenta todos os horrores que foram consolidados. Não parece haver pos- sibilidade além da renúncia do que foi imposto como real. E, portanto, é partindo desse modelo de uma não-vida e de um colapso da realida- de que nos deparamos com as obras de Ali do Espírito Santo, André Venzon, Andressa Can- tergiani e Julha Franz. A Deformidade do Belo, o Corpo-Tapume, o Universo Drag, a Metamor- fose e a Fabulação nos provocam a pensar o mundo não pela sua objetividade violenta, mas pelo onírico encantado, que é feito e refeito de símbolos, de misticismos, de celebração, de ri- tuais, de outro lugar possível, de um corpo en- tregue ao jogo da abstração e não apenas a um simulacro ou uma fantasia de estarmos vivos. São corpos que nos fazem sonhar para além de um escapismo, para além de uma fuga dos horrores reais, eles nos induzem a um sonho das possibilidades de ser e se colocam, com a própria imagem, incessantemente dispostos a viver dentro de uma noite veloz e a surgir en- cantados numa manhã combativa. _

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