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11 A falta que faz _O desejo, ainda inconsciente, era ganhar o mundo. A adequação à vida como ela se mostrava no silêncio profundo do campo e na quietude do vilarejo onde nascemos e passamos a infância parecia não bastar. Queríamos desvendar outras paisagens. Afinal, já havíamos nascido gauche, na contramão do que a sociedade entendia por normal. Éramos olhadas desde be- bês como criaturinhas estranhas. Provocávamos muita curiosidade no início e, com o passar do tempo, comiseração, risos, medo e uma admiração constrange- dora. Então, abrimos asas para uma indomável aspiração libertadora, que vinha de um escondido que não sabíamos bem como se desenhava. Nem por que via chegava. Mas estava ali, latente. Emmeio aos sonhos de crianças muito diferen- tes das outras crianças, nascidas em um canto da terra, quase escondido, com o esquisito apelido de “Boca-do-Mato”. Às vezes, recolhidas e inseguras. Em outras, curiosas e destemidas, brincan- do, andando pelas estradas, correndo pelos campos, subindo em árvores para ver o azul do céu mais de perto ou espreitar a tempestade ameaçadora. O certo é que não tirávamos os grandes olhos verdes do horizonte distante, capturado pela janela da velha casa de madeira da vila chamada Jaquirana ou pela imensa janela envidraçada da casa de pedra da fazenda, perto de Cambará do Sul. Já os ouvidos estavam sempre atentos às cantorias da mãe e das tias – fãs de valsa, de tango e da cantora Dalva de Oliveira – e aos sons que chegavam pelo rádio dos avós. Em especial, às músicas que vinham daquela “caixinha” cheia de vozes, que achávamos tão mágica. Ouvidos atentos também aos versos declamados pelo avô materno, que, por vezes, nos deixava com muita vergonha. Mas ele in- sistia. E que bom que tenha insistido e quebrado nossa resistência ao poeta, um tanto boêmio, marginal, que internalizava. Foi assim com a Marlene, criada na fazenda do Fundo Grande, em Tainhas, com nossos pais – Coralia e Nestor –, e nossos dois irmãos, Mariza, a mais ve- lha, e Rui, o mais novo, na casa dos avós paternos, Castorina e João. Foi assim comigo, criada na Jaquirana com os avós maternos – Sinhá e Juvenal –, as tias – Clori e Dalva –, e uma legião de primos que iam e vinham, numa convivên- cia vertiginosa. Assim vivemos a infância. Divididas entre uma incerta ordem e uma certa desordem. Um pé lá e outro cá. E só fomos descobrir bem mais tarde, já na fase desconsoladora e obscura da adolescência, que ambas sonhávamos com uma cidade grande para diluir nossa diferença e espalhar nossas fantasias e medos. Um lugar que nos possibilitasse atravessar os fantasmas, olhar com naturalidade para nossos tantos mistérios interiores e entender, quem sabe, a nossa condição física, estudar e tomar conta da vida. Se a adolescência por si só, dentro dos padrões, é uma fase difícil, a nossa foi fora da curva. Crivada de silêncios e pontos de interrogação. Sem respostas. Ha- via uma sensação de estranheza. De não pertencimento. Uma espécie de vergo-

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