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12 nha do próprio corpo que passava por mudanças, mas não crescia. Não éramos mais crianças e não sabíamos como nos relacionar de outra forma com o mundo ao redor, que não a forma da infância. Acabamos criando um universo paralelo, onde vivíamos ou, quem sabe, nos escondíamos, em paz com nossos questionamentos e delírios. Um lugar povoa- do de histórias e personagens que íamos inventando nas brincadeiras, diverso e distante do mundo das gurias da nossa idade. Amparadas por esse imaginário, íamos em direção ao mundo real com a di- fusa sensação de que a tal vida adulta poderia ser bem dura. Havia uma inquie- tude e um impulso que não entendíamos. Queríamos ir, apesar de. Era neces- sário. O ambiente familiar, cômodo, acolhedor, protetor, contraditório, precisava ser extrapolado para voos maiores e o nosso fortalecimento. O interessante é que éramos sutilmente impulsionadas para o voo. Mas o fato visível é que não crescíamos. Viramos pequenas “mocinhas” e não tínhamos ideia de como lidar com a juventude e os desejos que se apropriavam de nossos corpos tão pequenos, que chamavam muita atenção sempre que an- dávamos para além das portas caseiras. O mais fácil seria negar. E negamos por um bom período para o conforto de todos naquele momento de saída do casulo. Com o andar do tempo e o inevitável amadurecimento, fomos ganhando ex- periência e coragem, ainda em meio à muita nebulosidade. Passamos a buscar mais e mais respostas para entender a nossa condição física, que atraía inúme- ros e desconfortáveis olhares. Éramos felizes e infelizes misturadamente, como tão bem escreveu o escritor Guimarães Rosa, porque a vida que nos parecia tão dura às vezes era também encantadora. Conquistamos o mundo? Ou o nosso pequeno mundo? Sei lá! Mas seguimos inteiras. Negando e escondendo por alguns momentos o que nos perturbava. E ousando, arriscando, fazendo planos quando possível, nos reconhecendo como irmãs, amigas, parceiras, sempre emmeio às infinitas interrogações. E reconhe- cendo, aos poucos, lentamente, o que acontecia com o nosso corpo com nanis- mo, palavra que nos amedrontava e que não pronunciávamos. De repente, a morte me tirou a Marlene. Na maturidade, depois de muitos enfrentamentos e o entendimento necessário da vida. Já apaziguadas diante dos tantos questionamentos. E, justamente por isso, com outros desafios e pro- jetos pela frente, tranquilas para escrever e falar sem medo da dor e da delícia que nos acompanhavam nessa jornada de negação, sublinhada acintosamente pela discriminação. A ausência da Marlene mudou completamente a minha relação com o mun- do. O efeito primeiro foi devastador. Uma ansiedade sem limites tomou conta de mim. Andei no automático, e meu coração disparava a cada contratempo. Perdi o centro. Fiquei à deriva. Sem porto. Sem rumo. Só fragilidade, dor, medo. Nada
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