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13 mais parecia ter importância. O desamparo foi radical. Como é que tanto amor, tanta parceria, tanta cumplicidade, tanta convivência, tantas reflexões são ar- rancadas do teu cotidiano inesperadamente? Tanta arte. Tanta criação. Tantas buscas e tantas trocas para entender o que nos foi tirado, o que nos foi dado, o que não nos pertencia, o que escondemos e o que conquistamos. A nossa condição. A condição do outro. A avassaladora fragilidade dos humanos. Atordoada diante do inexorável, repeti inúmeras vezes, como um mantra, o verso do poeta João Cabral de Melo Neto – não há guarda-chuvas contra o mun- do – para entender que precisava fazer alguma coisa urgentemente. Em nome da vida. Da nossa vida. De uma relação que nos preenchia, ensinava, reforçava e estimulava a cada pedra no caminho, a cada clarão no horizonte. Em nome da minha vida agora solitária. Não sabia bem como fazer. Ainda não sei se sei. Comecei a tatear, a andar, a buscar outras respostas na tentativa de desenhar, quem sabe, outros desejos. Ou realizar o que já era latente. E foi lá, na fala do personagem João Celestioso ao regressar do outro lado da montanha, no livro Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, do escritor moçambicano Mia Couto, que vi acender inter- namente uma luz. Eis o que aprendi nesses vales onde se afundam os poentes: afinal, tudo são luzes, e a gente se acende é nos outros. A vida é um fogo, nós somos suas breves incandescências – A gente se acende é nos outros! O eu, sem o tu, não se vê! O eu, sem o tu, não se vê! _Em meio ao caos, descobri uma coragem que não imaginava ter. A fragilidade foi dando lugar a uma força que começou a pulsar lentamente, estimulada pela família e pelos amigos – por quem te acolhe, afaga, ouve, faz companhia, observa, critica, mas respeita teu movimento e vai te levando para experimentar outra história. Diante do que não tinha jeito, senti que precisava agir porque minha irmã Marlene me deixou muita vida. E assim fui tomada por um impulso restaurador, que vinha de relações já consolidadas e daquelas que se fazem nos momentos difíceis e permanecem. Passei, então, a escrever cotidianamente. Como um jeito de resistir, sobrevi- ver à dor, me ver existindo, me comunicar, mesmo sem a interlocução tão neces- sária, sem o contraponto de alguém que sentia a vida como eu sentia. Como um jeito de falar e me ouvir. Como um jeito de serenar, apaziguar a alma, preencher o vazio. Como uma tábua de salvação!
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