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14 Foi assim que no dia 5 de abril de 2016, um ano depois da morte da Marlene, comecei a escrever o blog Isso não é comum, no site Sul21, sobre acessibilidade, inclusão, diferença, preconceito e os tantos fragmentos do cotidiano político e social que me envolvia. O estímulo vinha especialmente da amiga Flavia Boni Licht. E dos jornalistas Núbia Silveira, Carmen Crochemore e Milton Ribeiro. Na retaguarda, Kixi Dalzotto, Zé Walter, Ariela Dedigo e Luana Alves, que me am- paravam nas leituras, revisão e postagens, além de Tamar Matsafi, que enviava fotos de Tel Aviv/Israel. A vida pulsava de uma forma muito desconhecida e solitária. Mas pulsava. E eu precisava alimentar essa pulsação. Seguir, quem sabe, com o inevitável compromisso de dar certo, de não falhar para continuar sendo aceita. Ou não. Mas seguir de alguma forma. Marlene e eu assumimos o compromisso de dar certo inconscientemente. Ocupamos um lugar social fazendo o possível para não decepcionar a confiança que a família depositava em nós, que se estendeu para a vida profissional. Uma espécie de pedido de desculpas pela nossa condição? Quem sabe? Um movi- mento que deixou marcas muito profundas – individuais e familiares – com as quais lidamos a vida toda. Perdi essa interlocutora atenta, bem-humorada, crítica, intensa. Restou um vazio enorme, e eu tinha/tenho que me ver com ele. Não há outro jeito. Ainda não aprendi a viver sem a Marlene. Nem quero. Éramos muito inde- pendentes. Cada uma tocava a sua profissão e as suas relações. Ao mesmo tem- po, tínhamos uma sintonia raríssima. O prazer da conversa, da análise, da arte. Mas aprendi que somos feitos da presença da ausência, do que vemos e do que não queremos ver, de trevas e de luzes. Aprendi que não temos salvaguardas, mas temos amigos. Aprendi a olhar e ver o outro como nunca, a dividir, a compartilhar, a trocar – a ser o que sou com o outro. Desses fragmentos todos, nasceu a escrita solitária que segue.

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