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170 o nosso estar no mundo. “Existirmos, a que será que se destina?” A pergunta do compositor Caetano Velo- so na canção “Cajuína” sempre esteve no nosso horizonte. E está no ar. Por isso hoje, mais uma vez, confirmo que existir é perguntar, é questionar, é não fugir dos sentimentos, não se acomodar, é buscar forças e preencher os vazios que vão se acumulando. É viver o luto. É resistir, apesar da dor, abrir portas, ampliar os relacionamentos. O nosso estar no mundo é feito assim, até o ponto final. Fun- damental, então, é sensibilizar ainda mais o olhar para o outro e entender que a falta que nos fragiliza é da condição humana. 03 março 2020 O cotidiano do trabalho em tempo de pandemia Minha proposta é fazer uma rápida reflexão sobre o trabalho a partir de uma perspectiva humanista. O que significa falar da complexidade do fazer cotidiano diante do isolamento necessário nesse tempo em que a pandemia tira a nossa paz? O que significa falar desta complexidade diante de milhares de trabalha- dores que não podem abrir mão do seu fazer e estão expostos a tudo? Como o pessoal da saúde, para dar apenas um exemplo. Sabemos que não há, em qual- quer atividade, uma simples execução de algo. Por mais mecânica que seja uma tarefa, há sempre a convocação de um indivíduo único e sua subjetividade. É impossível pensar o exercício profissional sem levar em conta a singularidade de cada um, histórias, famílias, valores, escolhas, enfrentamentos, medos. Mesmo que as ações sejam pautadas pela regularidade, essenciais para a sobre- vivência e a organização humanas, elas não eliminam a necessidade de cada pessoa produzir e dividir sua sabedoria e sua experiência de um jeito único. O sujeito, ao agir, mobiliza emoções, particularidades e vai promovendo negocia- ções entre o instituído e o inesperado. Justo agora vivemos sob o impacto do que está fora de controle e nos surpreende e entristece a cada momento. As normas são conquistas da sociedade, mas se as olharmos como definitivas corremos o risco de desconsiderar o que surge a todo o instante, como as perdas e dores do outro, especialmente em momentos de inquietude como o que vivemos. A saúde dos trabalhadores depende muito das suas origens, do meio em que estão inseridos, das suas relações pessoais e profissionais, das funções que exer- cem, da maneira como são tratados e das influências que recebem. Um trabalha- dor não é uma ilha imune ao movimento das marés, sejam elas quais forem. “A vida vem em ondas como o mar, umas difíceis, outras fáceis”, escreveu o poeta Vinícius de Moraes. E as ondas neste início de maio de 2020, que marca o Dia do Trabalho ou do Trabalhador, não estão favoráveis para ninguém. Por isso, a urgência de um olhar diverso e inclusivo, capaz de ver o trabalho e a atitude de quem o executa de forma empática, ampla e indissociável do con-
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