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172 e seus asseclas. Olhando por outro ponto de vista, o que acontece quando são levadas a sério? Aí são tratadas como pessoas extraordinárias, fora da média, aquelas que se supe- raram. Volto à pergunta: Superaram o que mesmo? Nanismo não se supera. Nanismo se tem e se vive com ele para o resto da vida. Trata-se de aceitar. E aceitar é a melhor maneira de viver porque nos dá ferra- mentas para entender uma condição tão ignorada. Desde que decidi encarar o preconceito de qualquer natureza, mais especifica- mente o preconceito contra as pessoas com deficiência e mais especificamente ainda, o preconceito contra o nanismo, meu mantra é NÃO DESISTIR! Raramente no meio profissional sou apresentada como “Fulana de tal, jornalis- ta”. A apresentação quase sempre vem sublinhada por um “mas” – “é pequena, mas é muito inteligente”, “pequena no tamanho, mas de sabedoria gigante” ou “é nos pequenos frascos que estão as grandes essências”. Há uma dificuldade embutida aí: Entender que tamanho e desempenho pessoal/profissional não se contrapõem. Quando comecei a conviver com pessoas com outras dificuldades ampliei a mi- nha percepção sobre o universo da deficiência. Foi quando me vi sem lente de aumento e iniciei uma travessia libertadora. Encontrei eco e passei a olhar para a minha condição sem negação e sem susto. Comecei a escrever e a falar. Dar nome aos sentimentos que me arrebatavam. Eu sou uma pessoa com ummetro e dez centímetros, de proporções físicas dife- rentes da maioria das pessoas. Um adulto em um corpo de criança? Pode pare- cer, mas não é. E, frequentemente, preciso provar que sou um ser humano capaz como qualquer outro, com o meu limite, é claro. Mas é bom salientar que o limite não é só meu. É também do outro que não consegue me ver e respeitar como eu sou. Portanto, a libertação só pode vir do que em nós é essencialmente humano – da curiosidade que instiga, da pergunta desarmada, necessária, e do olhar que acolhe. Sob o ponto de vista da inclusão e da acessibilidade – inerente ao cotidiano de quem busca mais solidariedade e menos preconceito – não vejo no horizonte um novo tempo. Além do estranhamento que o nanismo provoca, dos risos, piadas, invasão de privacidade, a palavra anão virou sinônimo do que é considerado indigno, torpe, pouco. É o caso de expressões como “salário com perna de anão”, “anão moral”, “anão diplomático”, “anões do orçamento”, “anões do poder”, que só ratificam a discriminação. Para as pessoas que têm uma diferença – física, emocional, intelectual, pelo comportamento, escolhas afetivas, cor, classe social – este novo tempo me pare- ce longe. Mas a pergunta provoca uma reflexão importante. É urgente um olhar

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