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173 livre para iniciarmos esta caminhada. Onde nasce este olhar? No núcleo fami- liar, na educação em casa. E se estende para a escola, para o mundo ao redor, lá fora. Ninguém nasce preconceituoso. As crianças são curiosas, fazem perguntas com sua inocência questionadora, querem entender o que para elas parece estranho, não é do seu universo, porque os universos são limitados. Portanto, o preconcei- to está em nós adultos quando inibimos a curiosidade, não deixamos a criança se aproximar de uma pessoa diferente e não oferecemos respostas. Só a criança é capaz de formular perguntas simples, dizia Einstein. Perguntas que, “depois de feitas, são capazes de trazer uma luz nova à nossa perplexidade”. Vou contar uma história que esclarece este raciocínio. Na rua, encontrei uma mãe com o filho de mais ou menos cinco anos. Quando me viu, a criança quis pegar na minha mão, e a mãe a puxou grosseiramente. Olhei para ela e disse – “Teu filho está curioso. Deve ser a primeira vez que vê de perto uma pessoa com nanismo. Fica tranquila. Vou falar com ele”. O menino me perguntou: “Tua mão é pequena? Tu é pequena?”. Respondi “sim, sou uma adulta pequena, não sou criança”. Ele olhou para a mãe sorrindo, pegou na minha mão e seguimos conversando naturalmente. A mãe me agradeceu. E eu reforcei: A curiosidade da criança faz parte do aprendizado. A fala organiza o espanto. Não deixar que as crianças se manifestem é perigoso porque nesses momentos de interdição é que podemos semear o preconceito. No livro infantil “A história mais triste do mundo” (Editora Bolacha Maria), do psicanalista e escritor Mário Corso, tem uma fala genial do anão Umberto, ao se referir aos trincos das portas: “Se as pessoas pensassem nas crianças nem precisariam pensar em nós, os anões. Por que os trincos das portas precisam ser tão altos? As maçanetas redondas são uma maldade com os anões e com as crianças: para abrir é preciso ter uma mão grande. Ninguém se dá conta disso?”. Do que precisamos, então? Precisamos entender que acessibilidade é cidadania e que incluir não é favor. Basta um olhar atento para a riqueza da diversidade humana, fora do institucional. Quanto mais ouço, leio e falo mais me convenço que a mudança está na educação, lá no início, na pureza da criança ainda não contaminada. Atitude que começa em casa, se estende para a escola, vai para as ruas. Fale, pergunte, responda, liberte. Só assim chegaremos a um novo tempo. Não somos nem vítimas, nem heróis. Somos diferentes e estamos na vida como qualquer pessoa, com limites, imperfeições, sonhos e aptidões. E a soma dis- so tudo é o que nos faz gente e nos torna inquietos e utópicos. Não queremos apenas atrapalhar o trânsito “feito um pacote tímido”, como diz a canção de Chico Buarque. Queremos parar o trânsito para que nos olhem como seres humanos com direito à vida plena. 07 de agosto 2020
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