9 URBE #5 intermitências URBANAS Passei a ser convidado pelos órgãos oficiais, de certa forma, é o reconhe- cimento do alcance da mensagem das minhas obras. Acabar fazendo uma crí- tica ao sistema que me alimenta, que me contrata. É o que acontece, muitas vezes. Foi assim com Labirinto (2012) nos parques públicos (instalações nos parques Villa-Lobos e Ibirapuera com fardos de material reciclável). Começou dentro de um evento e o governo me contratou pra fazer essas instalações. O próprio governo – que não tem uma política eficiente de recolhimento de resíduos sólidos – só recicla 1% do lixo. Existem esses movimentos curiosos do meu trabalho. CONSUMO INCONSCIENTE A instalação multimídia Supermerca- do (2012) critica a cultura de excesso e desperdício em relação à comida e o impulso de consumo que domina a sociedade contemporânea. A obra foi desenvolvida a partir de uma perfor- mance realizada dentro de um super- mercado em atividade, onde o artista conduz um carrinho e consome os produtos (supérfluos) das gôndolas di- retamente sobre o corpo. O resultado foi uma exposição formada por prate- leiras com alimentos manufaturados, monitores, espelhos e um sistema de áudio com o som do vai e vem dos carrinhos e a reprodução do vídeo em loop da performance de Srur. A ARTE VIROU CASO DE POLÍCIA O Touro Bandido é um personagem do imaginário brasileiro, um animal que nunca foi domado e virou lenda na- cional. O touro faz uma inseminação artística na vaca. A intervenção subver- siva em duas vacas da Cow Parade, nas avenidas Paulista e Faria Lima, em 2010, durou sete horas. Terminou com a apre- ensão das peças e um inquérito policial. A arte, de certa forma, rompe com a fronteira do que é legalmente aceito ou não. O meu trabalho às vezes faz isto, uma transgressão daquilo que é per- mitido – até aqui você pode, mas até lá ninguém nunca fez. Então é naquele lugar que a arte tem que trabalhar. Do ponto de vista jurídico, eu já tive que confrontar com o Touro Bandido por- que respondi ao inquérito criminal acu- sado por ato obsceno, difamação e da- nos materiais, fui prestar depoimento na delegacia, contratei um advogado criminalista. O que me interessa são as camadas que meu trabalho vai adquirindo durante o processo e mostrar o quanto ele é de fato experimental. Quando coloquei o Touro Bandido no evento Cow Parade jamais imaginei que passaria por uma situação de defender a arte numa dele- gacia, para um escrivão e uma delegada. Isto é o que fortalece a obra. O Touro Bandido realmente se torna um símbolo de contestação no momento que eu vou levar o discurso da arte pruma delega- cia, pros organizadores do evento, pras pessoas que sempre me perguntaram por que o touro comia a vaca. Isto me fez ter umconhecimento sobre os desdobra- mentos legais que a arte pode ter.
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