13 URBE #5 intermitências URBANAS menos de autorização do poder público para interferir na paisagem. Eles queriam um contato direto com as pessoas e es- tavam conseguindo isso. Anos depois, os pichadores Ju- neca e Pessoinha mostraram-me que a dedicação podia levar qualquer mensa- gem para a cidade inteira. Coisa que só as grandes empresas conseguiam, gas- tando muito dinheiro em propaganda outdoor. Escreveram seus apelidos ob- sessivamente em praticamente qual- quer espaço do equipamento urbano. Durante anos, mesmo depois que pa- raram de pichar, era possível encontrar suas assinaturas em placas de trânsito, viadutos, janelas, canteiros... nos quatro cantos de São Paulo. Durante muito tempo, o grafi- te e a pichação foram apenas compa- nheiros de viagem, distraindo o olhar e garantindo boas fotos. Somente após frequentar as galerias Most, Choque Cultural e conhecer pessoalmente grafi- teiros como Herbert, Speto, Zezão, Pato, Fefe Talavera e o coletivo SHN, tomei coragem e resolvi entrar na brincadeira. Em 2003, produzi minha primeira série de stickers usando fotos e desenhos que já tinha e saí colando por aí. As séries seguintes foram mais pensadas, eram imagens que registravam esses locais (espécie de ponto de encontro dos coladores), onde meus primeiros adesivos haviam sido colados. Assim, eles mostravam a passagem do tempo, registrando a deterioração dos stickers antigos e o aparecimento de novos. Meu olhar sobre a street art mu- dou imediatamente, de consumidor para produtor. Antes, eu apenas pro- curava o trampo dos outros, tentando reconhecer estilos e técnicas. Agora, es- quadrinho as paredes e os postes à pro- cura do local ideal para meus adesivos. Logo descobri que era fácil encontrar o local; escolher o que colar era a parte di- fícil. Nessa época, começava minhas ma- las de viagem sempre pelos stickers. Eles tinham que se espalhar pelo mundo. Em 2005, iniciei um projeto com a artista Alessandra Cestac, usan- do lambe-lambe. Saímos à noite com uma equipe de amigos que incluía ao menos um motorista e um segurança. Éramos deixados no meio de uma pista expressa, ela tirava o roupão e intera- gia com o cenário enquanto eu a se- guia, registrando tudo. A emoção de fotografar uma mulher nua no meio da rua só era superada pela visão do tra- balho colado no mesmo local onde a foto foi tirada. Essas imagens em tama- nho natural, mosaicos feitos com xerox colorida, espalharam-se pela cidade, dando visibilidade ao nosso projeto fotográfico. Neste mesmo ano, após a pa- lestra sobre pichação que apresentei em um congresso de type design em Nova York, fui questionado (pratica- mente desafiado) a produzir uma fon-
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