21 URBE  #5  intermitências URBANAS “A questão da hospitalidade começa aqui: devemos pedir ao estrangeiro que nos compreenda, que fale nossa língua, em todos os sentidos do termo, em todas as extensões possíveis, antes e a fim de poder acolhê-lo entre nós?” (DERRIDA, 2003, p.15) No coração da Mamma Roma 3 , os curdos encontraram um lugar para ficar em Ararat, nome por eles dado àquele local e que nada tem de ca- sual, pois quem foi criado dentro da tradição judaico-cristã sabe que Ara- rat é o nome do lendário monte onde Noé atracou a Arca depois do dilúvio universal. Portanto, Ararat – lugar do recomeço, da segunda chance, um lugar do renascimento – é um nome mais do que apropriado para batizar um lar de exílio. “Édipo: Filha do velho cego, a que lu- gar chegamos, / Antígona? A que cida- de? De que povo/ é esta terra? Quem irá oferecer/ a Édipo sem rumo uma mísera esmola? / (...) Mas, se vês / um chão onde eu possa deter-me e repou- sar, / seja em solo profano, seja em algum bosque / dos deuses, para e dei- xa-me sentar, / pois quero perguntar o nome desta terra; / devemo-nos como forasteiros consultar / os cidadãos da- qui e ouvir-lhes os conselhos. / (...) Antígona: Devo indagar o nome desta região? Édipo: Sim, filha, e se podemos residir aqui.” (Derrida cita Édipo em Colono em: DERRIDA, 2003, p.33) A arca do Curdistão atracou em Ararat em maio de 1999. Ao lado do pórtico de entrada do Campo Boario, aquele povo vindo de um país extinto encontrou o seu espa- ço de hospitalidade e acolhimento na velha capital da Roma imperial. A arquitetura, até então abandona- da, renasceu e foi rebatizada Ararat, um logos verdadeiro, onde um povo sem lar encontra um lar. Aos que che- gam e são reconhecidos por sua li- nhagem e etnia, as portas se abrem. Os que ficam passam a fazer parte de uma família, que busca resgatar e pre- servar o que restou da pátria. Vista interna do mangiattoio com os participantes do workshop na manhã do primeiro dia Foto: Maria Rocco, 2013 A comunidade vive no entorno do antigo pórtico do Campo Boario: nos edifícios vizinhos ao pórtico, alguns, ainda em tendas e outros em trailers localizados no entorno do campo, vizi- nhos à linha de trem que vai de Roma em direção ao aeroporto de Fiumici- no. Imediatamente ao lado do pórtico, situa-se o centro de convívio, que tem sua espacialidade organizada conforme a cultura curda: conta com uma sala de

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