22 URBE  #5  intermitências URBANAS chá, uma cozinha comunitária, barbearia e uma sala de leitura na qual é possível ler publicações relacionadas aos curdos e ver TV em língua curda. No meio do pá- tio, encontramos um jardim que lembra um oásis. O lugar invoca paz e sossego, com sua vegetação exuberante e seu centro de bancos de pedra formando um círculo. O jardim convida a sentar, ficar e conversar. O jardimacolhe a quemchega. Digamos sim ao que chega, antes de toda determinação, antes de todaantecipação, antes de toda identificação, quer se trate ou não de um estrangeiro, de um imigra- do, de um convidado ou de um visitante inesperado, quer o que chega seja ou não cidadão de outro país, um ser humano animal ou divino, um vivo oumorto, mas- culino ou feminino. (DERRIDA, 2003, p.69) Como os curdos, nosso grupo chegou de forma inesperada em Ara- rat, assim como em outras ocupações do Mattatoio, que ofereceram con- dições muito pouco hospitaleiras de acolhimento. Nossa chegada criou um espaço de tensão, desacomodando as pessoas que estavam tomando sol em frente à barbearia, os que jogavam gamão e aqueles que conversavam enquanto bebiam chá; todos passaram a nos ob- servar. Entramos no jardim enquanto Careri conversava com um deles, talvez fosse um dos líderes. Nós, então, senta- mos nos bancos em círculo no centro do oásis. Assim que a conversa encerrou entre eles, Careri anunciou que nos se- ria oferecido um chá de menta. O ato de oferecer o chá acolheu e dissipou o espaço de tensão. Naquele instante, o espaço-tempo de permeabilidade en- tre os hóspedes e os hospedeiros ali presentes passou a existir – o espaço do “sim” – possibilitando a abertura, a troca e o entendimento entre todos. O chá de acolhida no oásis hos- pitaleiro fez das diferenças culturais o motivo do convívio. Todos ali eram es- trangeiros. Continuando a cumprir seu destino, Mamma Roma foi mais uma vez a anfitriã de um inusitado encon- tro: a brasileira que tomou um delicio- so chá naquela tarde – e sentindo-me em casa, acrescentei em minha carto- grafia de vida um pedaço do Oriente Médio, na Itália. Depois do chá, segui- mos a deriva. “Quero ser o senhor da casa (...) para poder receber quem eu queira. (...) Não há hospitalidade, no sentido clássico, sem soberania para consigo, mas, como também não há hospitalidade sem fini- tude.” (DERRIDA, 2003, p.49) REFERÊNCIAS DERRIDA, Jacques. Anne Dufourmantelle convida Jacques Derrida a falar da Hospitalidade. São Paulo: Ed. Escuta, 2003 http://ararat-roma.blogspot.com.br/ http://pt.wikipedia.org/wiki/Mamma_Roma Celma Paese é arquiteta e ítalo-brasileira. Atualmente é estudante de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura (Propar-UFRGS) e bolsista Capes-Reune. www.facebook.com/caminhandonacidade NOTAS 1 http://ararat-roma.blogspot.com.br/ 2 Os fatos narrados no texto aconteceram durante uma missão de curta duração de 10 dias pelo Propar-UFRGS junto ao LAC – Roma 3, em Roma. 3 “ Mamma Roma é um filme do cineasta italiano Pier Paolo Pasolini realizado em 1962. O filme conta a história de uma prostituta que sonha em mudar de vida e de melhorar a sua classe social, o que permitiria voltar a viver com o filho Ettore. Para tanto, decide se casar com seu ex- gigolô, Carmine. O filme é objeto de estudo de pesquisadores de cinema, pelo fato de seus planos e angulações serem fortemente inspirados nos afrescos de Giotto e Caravaggio.” Ver em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Mamma_Roma Chá e conversa hospitaleira Foto: Maria Rocco, 2013 celma paese

RkJQdWJsaXNoZXIy NjI4Mzk=