25 URBE  #5  intermitências URBANAS lidade de vida, é muito difícil criar uma cena individualista em que apenas uma pessoa, ou um pequeno grupo, tenha benefícios exclusivos. A felicida- de de um sujeito (parte) está condicio- nada à harmonia em relação aos ou- tros, portanto ao bem-estar do coletivo (todo). Nesse sentido, é fundamental olhar para os elementos da cidade que são de uso comum de seus habitantes. O conceito de commons (do inglês) ou de procomún (no espanhol) encontra dificuldade de tradução para o portu- guês, mas o importante é buscar en- tender o seu sentido. “É uma nova maneira de expressar uma ideia antiga: são bens que pertencem a todos e a ninguém. Assim formam uma constelação de recursos que devem ser ativamente protegidos e geridos para o bem de todos. Esse “comum” é formado por coisas que herdamos ou que criamos coletivamente e quere- mos deixar para as gerações futuras. São exemplos de bens comuns: os bens naturais (ar, florestas, oceanos, a lua), os culturais (ciência, folclore, língua, sementes, internet) e os sociais (água potável, espaços públicos, a democra- cia), entre outros tantos que podemos elencar seguindo essa mesma lógica. Só percebemos que esses bens comuns existem quando eles estão ameaçados e então sentimos que podemos perdê- -los. ” (Antonio Lafuente) Portanto, para que uma cidade ofereça boas condições de vida e o mí- nimo de dignidade para os seus habi- tantes, é fundamental lançar estratégias para cuidar do bem comum. É notável a dificuldade que temos em perceber a existência desse patrimônio, visto que “é de todos e de ninguém”. Não fomos edu- cados para reconhecer esse tipo de ele- mento, definimos o que é público (como responsabilidade do governo) e o que é privado (como problema de quem é o dono), mas o que é coletivo fica esque- cido. Pela necessidade de se apropriar desse bem comum e criar novas formas de ocupação, uso e cuidado da cidade, que emerge o conceito de “laboratório cidadão”. Nesses espaços, os temas de interesse e as problemáticas (trabalho, educação, saúde, segurança) são abertas para discussão, desde diferentes áreas de conhecimento e graus de formação, por quem vive no dia a dia, e entre eles desenvolver projetos que gerem alterna- tivas, estimulando transformação, desen- volvimento social, cultural e econômico. A pergunta que um laboratório cidadão faz ao seu membro é: “O que tu queres fazer para mudar?” Dessa in- tenção surgem os projetos, ou seja, é impulsionado pelo desejo das pessoas (não dos especialistas) com o objetivo de desenhar o futuro a partir das neces- sidades locais. São espaços que usam da experimentação e da aprendizagem colaborativa, cruzando com metodolo- gias que integram ferramentas do De- sign Estratégico, das Ciências Sociais (antropologia, sociologia, psicologia) e das Ciências Computacionais (progra- mação de software, robótica, metarre- ciclagem, processing, Arduino, entre outras). De maneira geral, o que fazem é criar uma estrutura que coloca o usuá- rio no centro (cidadão) e possibilita a in- teração dele (e suas necessidades) com outros agentes que estão localizados nas empresas privadas, nos governos e nas universidades, tal conexão (conhe- cida como “hélice quádrupla”) é funda- mental para dar consistência e viabilizar a implementação dos projetos.

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