28 URBE  #5  intermitências URBANAS Desconstruções do invisível débora fantinI Na mesma fachada, vê-se uma pla- ca de proibido colar cartazes ao lado de lambes 1 . Neste caso, abreviatura de lambe-lambe, cartaz colado com grude que veicula mensagens anti- publicitárias, artísticas, micropolíticas 2 . Comum, essa cena é uma imagem do combate nas cidades entre uma visibili- dade absoluta que cega – o ideal esté- tico do muro branco ou a publicidade onipresente – e lampejos que fazem aparecer, ainda que de forma intermi- tente, o invisível em nossa sociedade. O cartaz surgiu para veicular in- formações comerciais e oficiais nas pri- meiras cidades modernas, que começa- vam a produzir volumes crescentes de informação sobre si mesmas, num efei- to da divisão urbana do trabalho e da aglomeração populacional. Anúncios nos muros remontam ao surgimento do teatro comercial na Espanha, no fi- nal do século 16. O cartel espanhol foi reproduzido no manifesto italiano, no Plakat alemão e no bill inglês. Na Paris do século 18, o affiche tinha papel tão importante que a atividade de afficheur , afixar desde anúncios de animais perdi- dos até decretos oficiais, era controlada por agência pública. Um século adiante, foi promulgada uma lei proibindo qual- quer cidadão que não fosse afficheur de fazê-lo. Até hoje, placas com a inscri- ção Défense d’afficher – Loi du 29 Juil- let 1881 (Proibido afixar cartazes – Lei de 29 de julho de 1881) são vistas pelas fachadas e pelos muros da cidade. 3 A proibição expressa pela cidade, como se vê, não impede que o cartaz, surgido para atender ao mercado e ao Estado, seja apropriado para expressar o oposto disso. A prática alcançou propor- ção significativa com adventos dissemi- nados na virada do século 20 para o 21, como a internet, equipamentos digitais, a exemplo de scanner e câmera foto- gráfica, e softwares de criação editorial e manipulação de imagens. Combinados a tecnologias obsoletas, como serigrafia e fotocópia, e técnicas artesanais, caso do estêncil, catalisaram a comunicação com lambes, bem como a paródia e a sabotagem de anúncios e outdoors. Co- nhecidas por culture jamming (pirataria Intervenção 2 Foto: Débora Fantini

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