30 URBE #5 intermitências URBANAS lidades de conflito. Lembre-se de que sua única opção é clicar no botão “cur- tir” quando quer expressar o contrário e talvez compreenda como uma placa, ainda que proibitiva, instaura um diá- logo, no qual o lambe é uma resposta. Essa possibilidade de negociação não é sugerida de forma tão óbvia pelo reves- timento antilambe ou por uma vidraça, à primeira vista não identificados como meios de comunicação. Até rochas podem parecer fo- finhas, como as pedras arredondadas colocadas no chão sob uma ponte na cidade canadense de Calgary. O que pode ser visto como um recurso de paisagismo tem como principal função impedir o abrigo de moradores de rua. Com o mesmo objetivo, são instaladas divisórias em bancos públicos que po- dem parecer apoio para os braços, mas servem para evitar que se deite no as- sento. Repare como esses elementos são sutis em não revelar sua função se comparados a pinos pontiagudos ins- talados em degraus que declaram o objetivo de expulsar quem poderia per- manecer ali. Estes últimos são ícones da estética de fortaleza que está caindo em desuso e cedendo lugar a dispositivos disfarçados de decoração ou conforto. Críticos classificam esses projetos de arquitetura hostil ou design desagra- dável. Em suas análises, eles escondem seu lado agressivo e desconfortável para manipular nosso comportamento sem que percebamos. Coautora do livro Unpleasant design (Design desagradá- vel, em tradução livre), publicado em 2013, a arquiteta, artista e pesquisadora sérvia Selena Savic definiu tais projetos como “inegociáveis”. “Se você tem um policial que proíbe as pessoas de se sentarem em algum lugar, ainda pode lutar ou discutir com ele. Quando você tem um banco com armadura, não pode realmente, enquanto ser humano, fazer nada a respeito”, afirmou, segun- do o site da BBC. 7 Projetos hostis e desagradáveis não vêm de hoje, mas são atualizados de acordo com as necessidades da gen- trificação, a transformação de áreas da cidade seguindo critérios de mercado, dentre eles a especulação imobiliária. Uma certa arte é invocada para embe- lezar a área gentrificada, sugerindo a vida urbana ideal como uma experiên- cia estética. Beleza e estética devem ser lidas aqui na acepção de uma harmonia traduzida em lugares limpos, claros, se- guros, em ordem, contrastantes com a tendência do urbano, enquanto territó- rio de multiplicidades, à opacidade e ao caos. Por isso alguns desses dispositivos podem confundir-se com decoração, mas esse aspecto encobre sua função principal de expulsar moradores de ruas, adolescentes vindos de bairros pobres ou trabalhadores informais. Em outras palavras, a gentrifica- ção acarreta a exclusão social de quem débora fantinI Arte e ativismo buscam explicitar as estratégias de controle social no espaço público escondidas em projetos de arquitetura ou design hostil e tentam retomar as ruas para os cidadãos excluídos delas.
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