32 URBE #5 intermitências URBANAS Aparições Em um esforço para recuperar a cidade, o artista francês Gilles Paté não apenas fez um inventário de dispositivos hos- tis escondidos no mobiliário de Paris, como tambémmostrou a relação de um corpo com pinos pontiagudos, pedras e grades nas ruas e exteriores de edifícios, além de assentos estreitos ou dividi- dos por braços de metal em estações de metrô, sentando-se e deitando-se sobre eles, não sem fazer contorcionis- mos, soltar alguns ais e esfregar pontos do corpo doloridos. A performance foi registrada no vídeo Le repos du fakir 9 (O repouso do faquir), de 2003, em par- ceria com Stéphane Argillet. A palavra faquir significa pobreza, em árabe, e como título da obra aproxima os mo- radores de rua da figura do asceta que executa truques de resistência, como se deitar sobre pregos. “A gestão tecnocrática considera corpos como objetos que impedem o controle de fluxo. Os cidadãos são in- fantilizados, agredidos por esses dispo- sitivos antiergonômicos. Hoje, o espaço público deixa de ser um espaço parti- lhado. Ele encarna a violência do poder. O mobiliário urbano é a parte visível de um urbanismo higienista que mol- da nosso comportamento em espaços públicos. Não podemos mais nos reu- nir em qualquer lugar. Não podemos mais sentar nos bancos: eles deslizam. (...) Esse urbanismo reprime moradores das periferias pobres, sem-teto e jovens para lugares menos controlados, fora do centro da cidade de Paris – monu- mento obcecado com a imagem petri- ficada e limpa que quer passar de si”, escreveu Paté sobre o trabalho. Por vezes, são os próprios mora- dores de rua que costumam ficar invi- síveis a olhos acostumados a sua visão. Por meio de uma fotografia de si mes- mo dormindo, serigrafada em MDF e espalhada por várias cidades, o artista carioca Guga Ferraz buscou fazê-los reaparecer diante desses olhares. A partir deste trabalho, Dormindo (2006), criou posteriormente Cidade dormitó- rio (2007), instalação, na parede exter- na da galeria A Gentil Carioca, de uma estrutura de ferro com oito camas, co- bertas por colchão e lençol, para uso da população de rua que vive nos arre- dores, uma área de comércio popular no centro do Rio de Janeiro. “Meu tra- balho é político, mas é apartidário. Eu sou completamente apartidário. Posso tomar partido de uma pessoa, de uma pessoa qualquer, mas não de um parti- do. Se existe uma pessoa dormindo na rua, é grave. Qualquer pessoa dormin- do na rua é grave. Então eu espalho a figura de uma pessoa dormindo na ci- dade e crio um lugar para as pessoas que não têm casa dormirem”, escreveu o artista. 10 Um outro “lugar para as pessoas que não têm casa dormirem” foi criado pelo artista paulistano Raphael Escobar e pode ser aplicado no cotidiano. Tra- ta-se de três modelos de toldos retrá- teis cujos projetos estão num manual disponibilizado livremente na internet, o Guia prático para instalação e uso de moradia urbana 11 , parte de seu traba- lho Pernoite , inicialmente planejado para a cidade de São Paulo, mas só co- locado em prática em Salvador, duran- te uma residência artística 12 . O modelo realizado foi Mutualismo (2013), toldo dotado de um mecanismo que pos- sibilita baixá-lo, para ser usado como abrigo para moradores de rua à noite, e erguê-lo durante o dia, para funcio- namento normal do bar onde foi insta- lado. Para executar o projeto a partir do débora fantinI NOTAS 1 O anglicismo sticker , adesivo ou cartaz, também é adotado no Brasil para designar lambes a partir da intensificação da prática entre o final dos anos 1990 e o início dos anos 2000. 2 Por micropolítica, entenda-se aqui os jogos com modos de subjetividade dominantes, reproduzindo- se ou não poderes hegemônicos, que não estão localizados especificamente na esfera estatal, mas em qualquer região do tecido social. 3 Essa genealogia do cartaz é encontrada no livro Uma História Social do Conhecimento: de Gutenberg a Diderot , do historiador inglês Peter Burke, em edição da Zahar. 4 Essa documentação foi feita com fotografias publicadas no site do projeto Unpleasant Design (design desagradável, em tradução livre), no endereço unpleasant.pravi.me/anti-sticker-ripples/ 5 Neste texto, o termo graffiti é adotado para designar tanto o grafite quanto a pichação e ainda a pixação. 6 A expressão aparece no texto A era do capitalismo fofinho e seus dissidentes , de Giselle Beiguelman, publicado na revista Select #4, fevereiro de 2012, e disponível em www.select.art.br/article/ reportagens_e_artigos/a-era-do-capitalismo- fofinho-e-seus-dissidentes?page=unic 7 Importante fonte para este texto, o artigo Secret city design tricks manipulate your behaviour, assinado por Frank Swain, foi publicado no site da BBC em 2/12/2013 e está disponível, em inglês, no endereço
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