34 URBE #5 intermitências URBANAS Débora Fantini é jornalista e pós-graduada lato sensu em Artes Plásticas e Contemporaneidade pela Escola Guignard da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG). Toca o Barco (barco.info) , ao leme do qual presta serviços para clientes e realiza projetos pessoais em assessoria de imprensa, reportagem e produção de textos. Pesquisa os temas escrita, corpo e cidade desde 2009. É coeditora do zine Mixsórdia (mixsordia.com ), agenda cultural online de Belo Horizonte, onde vive. mos ambulantes, um grupo de pessoas hostilizadas, não somente em agres- sivas batidas de fiscais de prefeitura e policiais, mas pela ausência de um lugar para sentarem-se durante a jornada. Para melhorar as condições de trabalho dos vendedores de semáforos, uma equipe de arquitetos do escritório espanhol Baum criou SI8DO, apresen- tado como “um mobiliário urbano de integração social, uma ferramenta de intervenção urbana subversiva”. Feito para imigrantes do campo que traba- lham nos sinais de Sevilha, consiste em anexar “como um parasita de semáfo- ros, uma simples folha de metal dobra- da, criando-se um assento e uma prate- leira necessários para um trabalho mais confortável. SI8DO não apenas joga os holofotes sobre uma situação urbana injusta mas também propõe uma so- lução.” O projeto recebeu o primeiro prêmio na competição promovida pelo Unpleasant design 16 em 2012. Um outro projeto de assento ur- bano busca trazer de volta a brincadeira ociosa desaparecida da cidade tecno- crática. É, na verdade, um balanço, e foi idealizado para pontos de ônibus, na tentativa de tornar a espera pelo transporte coletivo menos estressan- te. Pop up swings são balanços que, ao contrário das insistentes janelas de computador, nada têm de inconve- niente. A expressão aqui traduz o dese- jo do inventor, o designer inglês Bruno Taylor, de liberar a brincadeira de qual- quer função declarada. “Este projeto se concentra em maneiras de incorporar a brincadeira incidentalmente na es- fera pública, não tanto por ter-se um equipamento específico para brincar, mas usando o mobiliário existente e elementos arquitetônicos que indicam o comportamento lúdico para todos”, afirmou ao blog The Accessible City (ci- dade acessível) 17 em 2012. Um passo a passo em vídeo para fazer um balanço de madeira e corda simples, mas seguro, é disponibiliza- do livremente na internet pelo projeto Red swing 18 (balanço vermelho), surgi- do em Austin, nos Estados Unidos, em 2007, para incentivar a instalação do brinquedo, sobretudo em áreas degra- dadas, abandonadas e pobres. Em Belo débora fantinI NOTAS 18O site do projeto Red Swing é www.redswingproject.org 19Imagens e textos sobre Pode usar é de graça nos endereços ancildesouza.wordpress.com/2013/12/19/pode- usar-e-de-graca e colaborativoorla.wordpress.com 20Detalhes e fotos do Sticker-friendly Mat no site unpleasant.pravi.me/unpleasant-design-workshop-amro-2014 Horizonte, naquele mesmo ano, o Cole- tivo MAP deu início a uma intervenção urbana semelhante, posteriormente intitulada Pode usar é de graça . “A pro- posta inicial de sair às ruas a passeios ou deambulações deu origem a uma ação específica de ativação de lugares e/ou espaços, até então não necessaria- mente ocupados na cidade. Pendurar balanços em árvores diversas e deixá- -los instalados para que outras pessoas pudessem ‘usufruir’ de um ‘tirar os pés do chão’ (...)”, escreveu Ancil de Souza 19 , que realizou a ação com Marcelo Adão e Leandro Aragão. Os lambes não ficaram sem uma solução frente aos revestimentos que tentam combatê-los. Em workshop do Unpleasant design realizado este ano em Linz, onde esse dispositivo foi de- tectado em lixeiras, foi criado o Sticker- -friendly Mat 20 , um outro revestimento, mas amigável a lambes, feito em pa- pelão recortado no mesmo padrão da superfície, encaixando-se nela. “Nosso objetivo era voltar a permitir que os cidadãos de Linz pudessem anunciar e comunicar-se sobre esta superfície, re- cuperando, assim, uma parte do espaço público de volta do design desagra- dável”, está escrito no site do projeto. Neste caso, a estratégia da invisibilida- de acabou virando-se contra si mesma, mostrando que há pessoas determina- das a não entregar a cidade a um poder hegemônico sem resistir. shoppinização do espaço público: tudo fica parecendo um shopping.
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