12 URBE | # 02/04 | CORES URBANAS O choque: o punk como tradução cultural LEO FELIPE Com as grandes narrativas desacredi- tadas, imersos na tecnologia da socie- dade capitalista que superou a indus- trialização, diante do fim da opressão da história, vivemos na esfera do além. A evolução histórica do homem neste início de século XXI é marcada, talvez na falta de melhores expressões, por uma característica comum que denota tanto superação quanto consequência e está presente no uso repetido de um deter- minado prefixo. No campo econômico, enfrentamos o capitalismo em seu ter- ceiro estágio ou pós-industrial; a condi- ção pós-moderna, conforme apontada por Lyotard, define o estatuto de nosso saber; a arte pós-histórica celebrada por filósofos como Arthur Danto libertou o artista do determinismo modernista e instaurou o pluralismo. “‘Além significa distância espacial, marca um progresso, promete futuro”. A promessa de futuro vislumbrada pelo pensador Homi K. Bhabha (1998, p. 23) está no movimento dos milhões de hu- manos afetados por outra condição ex- pressa com a ajuda de nosso reincidente prefixo. O termo pós-colonial refere-se, especialmente, à condição originada em meados do século XX, após a indepen- dência das últimas nações acorrentadas à política colonialista europeia, quando ex-colonizados fazem o movimento re- verso, deslocando-se para antigas me- trópoles em busca de uma vida melhor e refúgio político. O termo também designa a produção cultural baseada neste local impreciso de fluxo e trocas, cores mistas, refúgio e exílio, diferenças inconciliáveis e diálogo necessário. Uma produção marcada por traduções e ne- gociações que tentam representar iden- tidades complexas, múltiplas, construí- das a partir de um conjunto de diversas características (etnia, gênero, geração, instituição, geopolítica, orientação sexu- al), identidades forjadas no terreno pan- tanoso da disjunção. A filosofia de Homi K. Bhabha – expoente da crítica pós-colonial – po- siciona o local da cultura nessa frontei- ra em que as diferenças culturais são articuladas. São chamados por ele de “entre-lugares”, locais dos fluxos mi- gratórios e das identidades complexas que extrapolam noções binaristas e in- tegram um novo internacionalismo de deslocamentos, trocas e negociações. “A significação mais ampla da condição pós-moderna reside na consciência de que os ‘limites’ epistemológicos daque- las ideias etnocêntricas são também as fronteiras enunciativas de uma gama de outras vozes e histórias dissonantes, até dissidentes” (p. 24). As teorias pós-colonialistas ce- lebram o híbrido, tomam partido dos destituídos e combatem uma visão eu- rocêntrica de mundo, denunciando a hierarquia cultural fundamentada em Subcultura e pós-colonialismo na música de The Clash e M.I.A.
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